O que há nos símbolos gráficos que pode nos ajudar a entender as pessoas e seus discursos ? Muitas vezes, a forma - e até mesmo o conteúdo - de uma frase esconde decisivamente a pessoa a quem queremos compreender. Freud foi um mestre na arte de desvendar o universo mais recôndito de seus pacientes, simplesmente através da análise do que essas pessoas falavam ou deixavam de falar. É possível desenvolver uma psicanálise do texto ? Se pensares como eu, que acho que tudo é texto, então estaremos de acordo: é possível uma psicanálise do texto porque tudo é texto. E se Herr Freud conseguiu montar toda uma estrutura explicativa acerca dos atos humanos analisando seus sintomas verbais e corporais (que também são texto), fazer isso com os sintomas expressos através da escrita (alguém aí duvida que a escrita é texto ?) pode ser factível. Certo ? Se estivermos de acordo quanto à premissa de que tudo é texto, podemos prosseguir. Se não, pelo menos leia o resto porque a curiosidade matou o guarda.
Todas as ações humanas decorrem diretamente do que elas - as pessoas - pensam e da forma como elas pensam. Isso é insofismável. Premissa seguinte: as ações são expressões desses pensamentos, e, na minha concepção, isso é texto, no mínimo um texto comportamental. Admitamos que, na maioria das vezes, as pessoas são impedidas de expressar completamente o conteúdo de seus pensamentos. Freud diria (e disse mesmo) que isso se dá porque as pessoas vivem em sociedade, e que elas desenvolvem sistemas de controle para se adaptarem às condições próprias das sociedades em que vivem. Existem duas formas básicas de controle: o controle interno, exercido pelo Superego; e o controle externo, que são as pressões sociais, as quais se manifestam como regras de etiqueta, leis jurídicas, papéis sociais criados pelas expectativas dos outros, etc. Freud foi muito perspicaz ao se dar conta de que quando as pessoas são, de alguma forma, impedidas de expressarem completamente seus pensamentos, elas deformam as expressões desses pensamentos. Tá complicado ? Exemplo: muitos pacientes relatavam a Freud imagens oníricas que se apresentavam como obeliscos, torres, e outros objetos que tinham sempre uma forma parecida. Freud xeretou bastante no inconsciente dessas pessoas e descobriu que o que elas estavam pensando mesmo era no Bráulio (PS: lembram do "Bráulio" ? Pois é, este texto é daquela época). Bráulio de quem ? Isso não interessa, é assunto particular delas (ou deles). O importante é que, sendo uma impossibilidade social - em certos momentos, é claro - expressar completamente a idéia de Bráulio, essas pessoas deformavam a expressão dessa idéia, transformando o Bráulio num edifício ou num Zeppelin.
E se esse tipo de texto (a verbalização dos conteúdos inconscientes) pode ser analisado, então a escrita também pode. E o que há na escrita que expressa algum tipo de conteúdo inconsciente ? Podemos nos valer de muitas formas de análise. Podemos analisar a caligrafia, a ortografia, a sintaxe, a forma como a pessoa vai enxertando os adjetivos numa frase, a forma como ela contrai os verbos, a forma das letras empregadas, a forma como ela se refere sobre si mesma; em suma, qualquer coisa pode ser o indicador que procuramos. É só procurar as estruturas que estão, implícita ou explicitamente, presentes no texto. Só para comparar: se entrarmos num quarto completamente desarrumado, sujo e com uma aparência de Hiroshima-depois-da-bomba, é fácil adivinhar que ali mora uma pessoa preguiçosa, relaxada e que talvez não ultrapasse a idade mental de um protozoário. Agora, se entrarmos num quarto limpo, organizado, e bem cuidado ... é claro, estamos no ambiente natural de um chato. Pois bem, a forma de expressão que analisamos foi a aparência física de um ambiente, e deduzimos alguma coisa sobre a pessoa que vive nele. Não descobrimos se ela é preta, branca, amarela, vermelha ou um arco-íris; mas descobrimos alguma coisa sobre o que ela pensa, e como pensa. Minha teoria é que ao fazer isso, nós lemos um dos textos possíveis da pessoa que vive neste quarto.
Dito isso, vamos em frente, como dizia o Senna segundos antes da curva. A premissa agora é que há um universo possível de comparações que não usamos normalmente. Comparemos discursos, mas de um outro ângulo. Tomemos os símbolos gráficos como expressões do inconsciente das pessoas. Mas não todos, é claro, porque todos denotam alguma coisa, mas, para nossa bolinha, vamos pegar apenas os mais expressivos: "!" e "?". Alguém aí duvida de que esses são os símbolos gráficos mais usados que são capazes de denotar fortemente a intenção de uma pessoa ? Sim ? Não ! Não ? Sim !
Mas não simplesmente aqueles discursos: "Coma direito, guri !" ou "Que horas são ?" Falemos daqueles discursos em que há uma atitude ideológica que pode ser sintetizada por esses significantes. Assim como uma pegada na areia é um indício (ou, tecnicamente, "índice", como diriam os Lacanianos) de que alguém passou por ali, o "!" e o "?" denotam que alguém expressou uma intenção com um certo grau de intensidade que pode ser consciente ou inconsciente; e essa intenção obedece a um tipo de posicionamento ideológico que se traduz, dialeticamente falando, na conservação de um conceito ou na sua destruição. Viajei, né ? Atendendo a inúmeros pedidos de fãs, explicarei melhor essa bagunça no próximo parágrafo.
PRÓXIMO PARÁGRAFO
Vejamos o caso do "!": um instrumento quase bélico de expressão de autoridade, um símbolo que avisa: "se não cumprires essa ordem, as conseqüências podem ser terríveis". Denota que o sujeito que faz uso desse instrumento quer ver o seu pensamento executado; quer que sua lógica seja preponderante sobre a dos outros. Mesmo nos casos em que a ordem é bagunçar o establishment, de promover o caos, a lógica do enunciador é estabelecida no sentido de preservar o seu pensamento. Mas isso não ocorre somente quando o símbolo "!" vem posposto na frase. Acredito que, devido aos sistemas de controle que essa pessoa desenvolveu durante a sua existência, o símbolo muitas vezes fica escondido na cabeça e não é expresso "graficamente". O que se pode analisar, então, é o texto que as pessoas constróem para dissimular suas intenções e atingir os resultados através de um discurso pretensamente sugestivo. Exemplo: um professor, durante anos, chega na aula e expõe a matéria sempre da mesma maneira, sempre na mesma ordem, sempre com os mesmos conteúdos, sempre com o mesmo método expositivo. Esse cara está colocando um "!" na relação que mantém com seus alunos. Está conservando o conceito de que ele tem a verdade e os pirralhos à sua frente não têm mais nada a oferecer do que uma simples comprovação das suas idéias. Mas há formas mais sutis de empregar o "!" numa relação social. Quando procuramos pesquisar algum assunto que não faz parte do currículo, somos sutilmente desencorajados a fazê-lo porque vamos investir tempo, esforço e paciência num projeto que, na grande maioria das vezes, não obterá reconhecimento acadêmico e talvez até nos atrapalhe bastante na vida universitária. O que isso denota ? Que a instituição colocou um "!" na relação que mantém com seus alunos, pois o que importa é a manutenção da idéia que ela tem de se fazer ciência. Não importa que talvez a transgressão desses princípios produza mais resultados, porque de muitas cabeças pode sair muito mais coisas do que de apenas uma. O que o "!" denota, fundamentalmente, é que o conceito que eu tenho é mais importante que o seu; e isso é a base da conservação das instituições, das pessoas e das suas idéias. Pois nada é mais importante do que manter a velha hierarquia, a velha ordem, a velha estrutura, o velho conceito, para quem usa o "!" na sua relação com os outros. Quem usa o "!" tem os olhos na nuca: só vê as coisa do passado - não que não se deva fazer isso: embora elas sejam importantes, devem servir para a construção do futuro. Mas, quando tudo parecia perdido, aparece outro sinal gráfico para confrontar, afrontar e enfrentar o "!": o "?" O que há por trás de quem usa o "?", além do bafo na nuca ? Não perca nosso próximo episódio.
PRÓXIMO EPISÓDIO
Se há alguém capaz de se opor semanticamente ao significante "!", esse alguém é o "?" Porquê ? Porque sim ! Felizmente Hegel nunca deitou os olhos nos símbolos gráficos, pois senão a festa estaria feita quando ele se deparasse com essa dupla. Porquê ? Porque se o "!" expõe a autoridade, denunciando a sua posição retrógrada e simplista, o "?" nada mais é do que o símbolo do questionamento. E o questionamento é o ácido que pode ser capaz de dissolver a preponderância de um conceito sobre outros. Por isso, esse símbolo é, muitas vezes, banido das mentes humanas, numa tentativa de unificar a patetice, de nivelar por baixo. O "?" envolve uma grandeza de caráter que começa no simples reconhecimento da própria ignorância. "Só sei que nada sei" . Então pergunta, ô mané ! Pois é, o "?" implica reconhecermos que somos manés, e que temos muito a aprender. Essa é a posição de quem, ideologicamente falando, tem os olhos voltados para o futuro, para a reorganização do caos, para a comparação entre conceitos, para o entendimento real do que se passa com os outros. Humanisticamente falando, é a posição de quem se importa com o pensamento de outros seres.
Mas, muitas vezes, o "?" pode ser um fator altamente subversivo porque se pode perguntar coisas que não têm respostas, ou pode-se perguntar coisas cujas respostas sejam muito dolorosas para quem responde.
E há ainda, aqueles que, sub-repticiamente, transformam o "!' num "?", fazendo perguntas que já estão respondidas, num recurso de imposição das suas idéias. Exemplo ? Dois pontos: "O senhor não sabe a resposta dessa pergunta ? " Mas esses casos não passam de desvios da idéia central. O certo é que, em algum momento da história do homem, percebeu-se a necessidade de representar essas atitudes - a dúvida e a ênfase das proposições - através de elementos gráficos. O conteúdo desses elementos pertence a um repertório de conceitos que ainda resiste ao passar dos séculos. Isso significa que o homem não mudou muito em todos esses anos ?
ATENÇÃO !
INTERROMPEMOS ESSE TEXTO PARA TRANSMITIR NOTÍCIAS URGENTES DE BAGNÃODÁ,
CAPITAL DO ARAQUE.
INFORMA STEVE AQUI,
O NOSSO CORRESPONDENTE DE ARAQUE:
"O presidente do Araque, Mustafá Ali embush, acaba de sancionar a lei que regulamenta o imposto sobre a circulação de idéias. A partir de hoje, quem pensar demais - e espalhar o cheiro fétido de suas elucubrações - deverá pagar um por cento de imposto ao Banco Nacional do Araque, em cheque ou papéis do tesouro nacional. As universidades, os professores e os alunos de Araque não serão atingidos pela medida."
hehehe, muito bom!!!!! (com muitos pontos de exclamação!) Só não vou escrever muito para não expor demais minhas intimidades à tua pseudicanálise gráfica... Parabéns pelo novo blog. Quando sai o próximo post????? (com muitos pontos de interrogação!)
ResponderExcluirAbração,
Leo
A pedido do meu amigo Geraldo, aqui vai um comentário feito a partir de outro ponto de vista, muito bacana:
ResponderExcluir"Jimi, entrei no teu blog, li o texto, achei legal, fiz um comentário, mas a minha falta de intimidade com este recurso me impediu de gravar o conteúdo. Quando pediu o perfil, eu não passei...
Deixo meu comentário, aqui mesmo.
Camarada
Concordo que a linguagem escrita é uma fonte de análise da personalidade e do comportamento humano. E que se trata de uma fonte riquíssima também. Acredito mesmo que deva haver especialistas neste assunto. Mas, assim como as outras formas de análise do consciente e do sub-consciente humano, esta sujeito a erros.
Para mim, todo indivíduo é um "artista", que sabe representar mais de um papel social. Ao longo da vida assumimos vários papeis: filho, amigo, vizinho, conquistador, carente, valente, esposo, amante, profissional, educador, transgressor, arrependido, o que mata a família para não ir trabalhar.... Nem sempre a atitude de uma pessoa representa realmente seu pensamento, assim como o que ela escreve. Veja o exemplo do Marco Antonio Becker. Quem lia seus artigos e pareceres jornalisticos nunca identificaria sua compulsão por jogos de azar ou suas preferências sexuais. Por isso, considero difícil estabelecer uma análise completa de um indivíduo a partir do que ele escreve.
Gostaria de te dizer que não concordo com a tua análise do "!". Acho que tu foi muito rude com ele. Não o considero um "instrumento quase bélico de expressão da autoridade". Bem pelo contrário, vejo o "!" como uma insinuação de que aquela escrita ou pensamento finalizado por ele é importante para a pessoa que o usa. Para mim ele dá destaque à algo que vai do horrível ao maravilhoso. Ao analisar uma pessoa que usa este sinal gráfico, diria que se trata de alguem com vivacidade suficiente para se deixar afetar pelos fatos da vida. Que não é um recurso típico de uma pessoa deprimida ou desmotivada, que não enxerga mais os sabores da vida.
Pois bem aí esta uma análide gráfica diferente da tua!
Um abraço!
Geraldo"
prabés ricardo muito legal o teu trabalho comtinua assim eu ga li quase todo o teu blog!!!
ResponderExcluirass:matheus,
aqui do comdominio