terça-feira, 10 de março de 2009

Sem carona

Foi num dia em que o vazio daquelas tardes de inverno se tornou insuportável. Decidi abrir o último álbum de fotografias na sua casa ainda não desbravado que se escondia desesperadamente em cima do roupeiro cor de bergamota. Finalmente encontrei o pedaço de sua vida que há anos tentava desconsoladamente identificar e comparar com a minha. Olhei para aquela sua foto na 101 com o pedaço de papel no colo. Aquele que você arrancou da porta do banheiro do restaurante e escreveu no verso: Garopaba. Rever aquela imagem foi como sentir dor numa perna amputada. O inextricável cabelo comprido quase encobrindo a magna intenção de começar a conhecer o mundo além do quintal e seus abacateiros, estampada gentilmente num rosto espinhudo, quase cadavérico. Meu olhar fugiu para o lado, buscando uma cumplicidade que não encontrei no abajur nem na cortina da janela. Expirei um ar antigo e velhaco dos pulmões, tentando esvaziar a mente dos vícios que os anos foram amontoando nas minhas idéias, artérias e roupas. E encarei de novo a foto, desta vez com coragem suficiente para não desviar os olhos de mim mesmo.

Um pirralho de quatorze anos, pensando que sabe tudo da vida, esticando o polegar na beira da estrada. O asfalto derretendo a sola do tênis; jeans embrulhando meia dúzia de quilos de carne magra, incapaz de esconder o corpo ossudo. Led Zeppelin retumbando no cérebro ainda despoluído pela neurastenia séria, rotineira e sem graça do mundo adulto. O compromisso firme de não ter compromissos. Essas sensações vazaram da foto assim que eu fechei os olhos, em busca do tempo perdido no baú das minhas lembranças. Assim eu viajei de carona para Santa Catarina quando consegui proclamar o primeiro suspiro de independência da família na minha vida.
Nem barraca eu tinha, desenrolava um cobertor e me esticava em qualquer lugar. Se fosse fácil, não tinha graça: o que valia a pena era a lenda. O universo inteiro se movimentando conforme o desejo momentâneo do meu pensamento mágico. Nada que um simples toque de uma “varinha” não resolva. Fome? Dê-lhe cachaça! Cansaço? Dê-lhe cachaça! Medo? Dê-lhe cachaça! Cachaça? Cachaça! E assim, quilômetros iam sendo engolidos, os dias chegavam azuis e tranqüilos e as noites eram dormidas sem muito frio. As cidades daquela época abrigavam alguns remanescentes  de um tipo de irmandade que se reconhecia pelo andar arrastado, inodoro e insípido, rumo ao infinito, típico daqueles que não estão muito interessados em saber para onde vão. Simplesmente uma questão de limites: os limites estão onde os colocamos. Então, tudo o que se tem a fazer é não pensar muito nisso e seguir adiante. Próxima parada? Para onde a carona levar.
Deixar que o destino mande na nossa vida é próprio de um tempo que pertence a algum lugar encantado das nossas memórias. Continuo desconfiando que Adão foi expulso do paraíso quando era adolescente. Marcado no inconsciente coletivo da humanidade está o mito do rito de passagem, uma condensação da época na qual já não somos mais crianças, mas também ainda não somos adultos. É o tempo de começar a aprender sozinho o que todo mundo passou a vida inteira tentando nos ensinar; é o tempo de conhecer os limites que separam a lenda dos fatos. E, pior do que isso, ter que decidir a escolha sozinho.

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