terça-feira, 24 de março de 2009

A Cor que faltava


Egípcios, cretenses, sassânidas, bizantinos, otomanos, góticos. Entre os mosaicos da mente humana, através dos tempos, o espírito de Maurice preside a sua busca com autoridade própria dos imortais. Seus olhos esquadrinham os universos possíveis contidos nos excertos dos medievalistas. Bombaim, Ankara, Marselha, Recife e, agora, Porto Alegre presenciaram secretamente a sua imensa capacidade de perseguição. Maurice teve que envelhecer sessenta e oito anos para vencer o duelo contra os códigos entrincheirados na escuridão da ignorância. A deformação exagerada dos traços de sua personalidade empurrou-o ao encontro dos apelos dionisíacos dos magos do velho mundo. Saqueou os mistérios hibernantes dos mosteiros, penetrou a estrutura dos contornos dos pilares babilônicos, instruiu-se com os fantasmas guardiões das bibliotecas alexandrinas, bateu-se em combate verbal contra os quarenta e sete capitães de um ermo jardim nas proximidades do Labirinto.
A história desconhece os diversos momentos desse pesadelo tão lúcido compartilhado por tão poucos. Existem os templos arrancados da pedra, bordados pelo inconsciente coletivo e contemplados pela parte da humanidade que não está no seu ciclo individual de guerra; mas sabemos, também, dos monumentos não físicos, erigidos pelos pensamentos decentes e só acessíveis à arqueologia alquímica. Maurice desenterrou habilmente os genes lingüísticos dessa ciência. Em Marselha, onde instalou o escritório central de sua empresa cabalística, estudou a sintaxe contida na engenharia das catedrais. Aprendeu a reconstruir gramaticalmente as definições e os pentagramas vandalizados pela noite dos séculos. Seu plano sofreu um desvio fundamental quando Maurice sonhou com o Enigma óbvio.
No enredo onírico, um cidadão da Saxônia, pálido e roído pelos germes da lepra, segurava com mão plúmbea sua garganta. Maurice pensou, enquanto sonhava, que a culpa o enforcava lentamente. Mas, do ar que se extinguia dos seus pulmões, foi brotando uma gigantesca bolha de vidro, portando todas as cores do mundo. A bolha explodiu e seus pedaços ficaram grudados na parede, formando um imenso vitral. Vitrais ! Maurice acordou tão espantado e tão afoito em dominar tal linguagem que nem viu as marcas de dedos impressas no pescoço e refletidas pelo espelho. Foi numa madrugada de sexta para sábado que os fornos adquiriram sentido na existência do francês. Mais vinte anos escorreram pelas artérias desse homem, decifrando a metáfora das cores, a lógica estrutural desse peculiar tipo de composição e o significado de uma arte que descrevia, entre outras coisas, os princípios éticos das relações cósmicas. Apropriou-se dessa semântica. Leu todas as esperanças de uma sabedoria pré-histórica, expressas na freqüência da luz modificada pelo vidro. Percebeu o jogo das elipses envolvido no mundo emaranhado das cores. Decodificou cada uma dessas elipses. Todas elas ? Não. Faltou uma. Agora, ele levanta os olhos de um livro amarelado e comido pelas traças, deserdado numa banca de saldos da Feira do Livro de Porto Alegre. Subitamente, sente o ar evadir-se dos pulmões e um nó górdio formar-se na garganta. Dez anos adormecidos em seu coração despertam bruscamente com uma visão. Natalie. Na sua frente, olhando para ele. Os dois unidos por uma saudade recíproca. Maurice percebe, num violento "insigth", que acumulou todos os tesouros dos antigos, todos os movimentos de sua vida,para compreendê-los instantaneamente numa praça de uma cidadezinha brasileira. Para trocá-los pela cor dos olhos de Natalie. O chumbo finalmente transmuta-se em ouro.

sábado, 21 de março de 2009

Crônicas européias – 1. INDO

Só quem mora ou já morou numa casa que não é sua sabe o que é isso. E não estou falando nem de aluguel. Falo de uma fronteira da vida, início de casamento, quando nem para aluguel a gente tem dinheiro. Vive em casa emprestada por parente, num recanto da vida em que o futuro é uma idéia longínqua, sem rosto; e o presente é uma muralha de incertezas que se vai desdobrando cruelmente na nossa frente. Foi nessa fase de extrema insegurança financeira que eu e a Maria decidimos garantir um teto, fosse qual fosse, desde que nosso fosse cada tijolinho de suas paredes, cada ladrilho do banheiro, cada maçaneta de cada porta. Entramos de cabeça num financiamento do SFH. 15 anos pra pagar, prestação que não acaba mais. Mas aí vai ser nosso, não é mesmo? E fomos viver a vida. Agora mais tranqüilamente, claro, já teríamos onde recostar os ossos num dia do inverno da nossa vida. E, pensem bem nisso, nunca esqueçam, que há uma verdade superior à nossa teimosia: o tempo passa. Inegociável. Os anos passam, a vida passa, os filhos nascem, os cabelos embranquecem, os calendários na parede vão sendo trocados. Ano a ano, 15 anos. Até que chega um dia em que, vejam só, a gente termina de pagar aquele financiamento. E, sorte, esforço, ajuda de muita gente boa, nunca precisamos recorrer ao JK financiado. Ficou ali, de ladinho, pronto pra qualquer coisa, atento às tempestades da nossa vida. Nesses anos todos, alugáramos o JK e com este dinheirinho completávamos o pagamento da prestação dele mesmo. 15 calendários depois, eis que num belo dia a gente quita a dívida e fica com um ativo considerável sobrando. Um JK quitado. Quem diria, hein? E agora? Que fazemos? Melhor vender e investir em algo pra usar agora. Comprar uma casa na praia? Um carro? Meu sogro matou a charada.
- Façam uma viagem. Com esse dinheiro, vocês podem fazer uma bela viagem à Europa.
Dito isso por uma pessoa viajada, que conhece o mundo todo, a idéia brotou arrebentando, esmagando e dissolvendo qualquer outro tipo de projeto em análise. Viajar para a Europa seria concretizar imagens mágicas de cidades fantásticas, paisagens extravagantes e ambientes seculares vistos em livros e filmes e regurgitadas na nossa imaginação. Desde este dia, de idéia luminosa e noites sonâmbulas planando mentalmente sobre pagos europeus, até pisar no 737 da Air Europa verteu mais um ano. Mas que ano! Com que deliciada energia nos atiramos às pequenas tarefas e obrigações do nosso empreendimento transcontinental. Precisa passaporte. Faça-se passaporte. Precisa seguro-saúde. Faça-se seguro-saúde. Precisa-se de guias e roteiros. Compre-se. Planeje-se. Precisa-se de malas. Compre-se malas. Babá pras crianças. Babá. Casacos para o frio. Casacos. Cartão Internacional. Eurail Pass. Botas. Mochila. Bolsos nas cuecas. Tudo foi providenciado com um brilho quase aristocrático enfeitando cada um de nossos olhos.



E agora estávamos embarcando. Saboreando cada detalhe do início da odisséia. Já no Galeão, esperando o horário do vôo, a Europa se intrometia. Por exemplo: se fazia concreta na nacionalidade de alguns passageiros na sala de embarque. Um casal lendo o “El País”. Serão mesmo espanhóis? Um brasileiro paquerava uma italiana. Aquela ali, de batinha, parece uma típica espanhola ... só faltam as castanholas ... Sei lá se eram mesmo europeus todos aqueles que a gente imaginava ser naquela sala, talvez a Europa estivesse apenas insatisfeita nos nossos desejos e já começava a transbordar para nossos sentidos. O certo é que a gente até perdia a vergonha de parecer piegas e pensava um com o outro: “isso tudo está sendo muito maravilhoso!”
A nossa primeira mancada de marinheiro de primeira viagem foi acreditar que as regras são sempre cumpridas pelas companhias de viagem. Lição nº 1: DESCONFIE SEMPRE. Chegamos no Galeão às três horas da tarde vindos de Porto Alegre, e fomos direto ao balcão da companhia nos informar sobre horários - nosso vôo sairia às onze da noite. Um cartaz avisava lá: “Check In para o vôo tal (o nosso) às 20h”. Muito bem, fizemos tempo no aeroporto a tarde toda, olhando vitrines, livrarias, lendo, caminhando. Às 19 horas, fui dar uma olhadinha no balcão. Uma fila se espichava pelo corredor com umas trinta pessoas já esperando atendimento. E umas trinta pessoas JÁ TINHAM SIDO ATENDIDAS. Sacanagem! Acabamos pegando os últimos lugares do vôo, duas poltroninhas esmagadas na última fileira, grudadas nos banheiros do fundo do avião. Resultado: Passamos as oito horas do vôo ouvindo a descarga do banheiro sendo acionada ininterruptamente. Bom, pelo menos tem os filmes que a gente pode ver na telinha atrás de cada poltrona, não é mesmo? Outra pegadinha. Você precisa COMPRAR os fones de ouvido. Pois por indignação não compramos. “Oraondejáseviu?!” Não vamos comprar e pronto! Além de pegar o pior lugar ainda vamos PAGAR pelos fones de ouvido ? Ora essa! Fizemos a coisa mais inteligente a se fazer naquelas circunstâncias. Passamos as oito horas no pior lugar do avião e TAMBÉM ficamos vendo os filmes sem fones de ouvidos, ouvindo o barulho da descarga dos banheiros! Tão pensando o quê? Só porque somos tupiniquins? ... Mas se tivemos estes pequenos percalços, pelo menos tivemos a sorte de passar a viagem ao lado de uma pessoa bem legal. Um mineiro que estava indo visitar a noiva na França. Muito bacana o rapaz. Educado, inteligente, gentil. Só tinha o importante defeito de ter levado apenas um fone de ouvido particular. Será que ele não pensou na possibilidade de encontrar um casal também bacana como nós e que precisaria desesperadamente de um par de fones de ouvidos durante a viagem para a Europa? Não sei como existe gente tão despreparada viajando por este mundo afora.
Mas então eis que o 737 da Air Europa pousa no aeroporto Barajas, um dos mais importantes do mundo, em Madrid. Acorda, Maria Bonita! Hoje você vai fazer o café em Madrid. España. Dá pra acreditar? E acorda logo! Temos 30 minutos pra passar pela imigração e fazer a conexão para o nosso vôo para Barcelona. Já! Corre! Meu Deus, como é grande este aeroporto! Tem ônibus? Espera! Tem ônibus! E as malas? Já foram! Qual é o nosso terminal? Pergunta praquele cara ali! Mas pergunta em espanhol! Passaporte! Ei! Esse cara tá furando a fila! Faltam 15 minutos! Corre! Tem que tirar as moedinhas do bolso. Bota nesta bandejinha. Passa nessa esteira. Tira o cinto! Passa pelo detector! Faltam 10 minutos! Deixa as moedinhas! Corre! É naquele portão! Naquela fila! A passagem! Faltam 5 minutos! Aqui! Pô, mas é nessa fila ou naquela? Ali! Vem! Corre! ... ... ... Ufa! Conseguimos! Chegamos, Europa!

terça-feira, 17 de março de 2009

Sessåo de cinema

Era uma sessão fechada, a sala de projeção, clandestinamente arranjada, ficava no colégio Nossa Sra. das Dores, e o filme era Easy Rider.



O ano era 1980 e eu já tinha 18 anos, um pouco “velho” para os padrões etários do resto da assistência. Isso interessa porque eu nunca havia conseguido ver o filme que era uma espécie de lenda no universo dos “magrinhos” (alguém ainda se lembra dessa gíria ?). Quando eu tinha a idade dos meus colegas, o controle sobre a censura era bem maior (“O filme é meio subversivo”); não era qualquer pirralho que entrava num filme proibido para menores, ainda mais este filme. Amor livre, drogas, vagabundagem, detonação dos padrões sociais, idéias esquisitas de um mundo psicodélico, um Id desgovernado pilotando uma Harley Davidson asfalto afora: “não queremos isso para nossas crianças !”.

Mas o principal chamariz para que as bilheterias dos cinemas - um circuito bastante restrito, é claro - vissem brotar uma multidão de cabeludos, esfarrapados e devidamente “preparados”, na calçada à sua frente era a trilha sonora do filme. Havia a temperatura de um concerto de Altamont, uma descarga de adrenalina invadindo os poros auditivos de uma massa quase que fanatizada pelo encantamento de uma geração. Uma geração que parecia não pertencer a um passado tão longínquo.

Só muito tempo depois é que eu vi o filme Vidas Secas. Para ser mais exato, foi quando eu comprei um aparelho de videocassete. Comecei a rever aqueles grandes clássicos que eu pegava na TV num buraco da madrugada. Depois veio uma fase em que eu alugava filmes modernos, depois os alternativos, e só então é que eu comecei a pegar filmes brasileiros. Aí eu conheci Vidas Secas.




Parece meio dispensável referir isso, mas o processo reflete basicamente as mesmas condições de produção que dominam o sistema industrial do cinema. Entre os clássicos citados acima, pode-se dizer que uns 80 a 90 % são oriundos das grandes produtoras norte-americanas. Embora a França seja considerada o país natal do cinema, só os americanos (uma população ironicamente constituída por imigrantes) tiveram a percepção exata do poderio comercial do cinema. E investiram grosso naquilo que acabou se tornando uma forma de se fazer cinema. Por isso, mesmo quando tenta quebrar essa forma, o cinema norte-americano contém características que o tornam reconhecíveis. No caso do filme brasileiro, vê-se que essas características não formam uma identidade própria, e então o produtor nacional tem que se valer de sua originalidade, de uma linguagem particular com tal densidade que acaba por se transformar num tema universal. É por isso que há tão poucos filmes brasileiros que atingem um certo grau de respeitabilidade e permanência: eles não têm o aparato mercadológico que os outros têm. E é por isso que eu só vim a conhecer Vidas Secas quando comprei um vídeo.

Easy Rider, apesar de conter um discurso contracultural, é tipicamente um produto americano. Percebe-se nele a forma americana de fazer cinema: um processo industrial, com os técnicos especializados, com a maquinaria perfeitamente engrenada, com uma linguagem rica em recursos de narrativa e, claro, com verbas suficientes. Não que Vidas Secas não tenha riqueza de recursos narrativos, mas eles dependem muito mais da criatividade e bom gosto do autor do que de um padrão nacional de qualidade. Qual a diferença entre Tom Jobim e Frank Sinatra ? “The Voice” vende mais discos.

Isso é facilmente identificável nos filmes em questão: em Vidas Secas, os movimentos de acompanhamento de câmera são tremidos, denunciando máquinas inadequadas para esse tipo de tomada; enquanto que em Easy Rider os movimentos são perfeitos, dando maior clareza na descrição da informação. Pode-se dar um desconto pela diferença de épocas em que os filmes foram realizados, mas, francamente, acho que os problemas técnicos são muito mais evidentes nos filmes nacionais pela simples razão de serem realizados sempre em precárias condições. Mesmo os piores filmes americanos - excluindo-se os “classe B”, que fazem parte de um tipo muito particular de cinematografia - são feitos com uma evidente preocupação de atenderem a um padrão mínimo de qualidade.

Os dois filmes têm coisas em comum. Tratam de elementos marginais da sociedade, os quais representam uma parcela bastante específica da população. Em Vidas Secas é o bóia-fria, representante de uma “dramática realidade social de nossos dias ... que escraviza 27 milhões de nordestinos ...” (Graciliano Ramos), que busca a sobrevivência num estado de extrema miséria. Em Easy Rider é o hippie, um personagem que desistiu da vida social burguesa e vive um incessante carpe diem num tom multicolorido. Ambos são nômades e viajam através de seus países parando aqui e ali, até que alguém os expulse - o que nunca demora muito a acontecer. Ambos são desprezados pelas instituições que encontram pelo caminho - a polícia, os patrões, os cidadãos respeitáveis. Ambos encontram uma forma de afirmação da personalidade na indumentária - Fabiano com os trajes de vaqueiro, que o fazem um trabalhador digno; os motoqueiros de Easy Rider com as roupas espalhafatosas, que os identificam como adeptos da geração “paz e amor”, uma afirmação pela vida alternativa e contra as campanhas militaristas da época - Coréia, Vietnã. Ambos têm no meio de locomoção um ícone bastante apropriado: Fabiano, com seu cavalo; os hippies com suas motos. Ícones das sociedades a que pertencem: o cavalo e o boi denunciando uma fase agropastoril de produção, um símbolo do atraso tecnológico do meio descrito; a moto ilustrando uma sociedade industrial, lubrificada com o óleo da modernidade. Bastante significativo em se tratando de dois produtos de uma indústria cultural chamada Cinema.

Se um diretor chinês resolvesse filmar Vidas Secas com atores chineses, em locações chinesas, com produção chinesa, pouca coisa precisaria ser adaptada. Isso porque há uma certa equivalência entre os estágios de evolução do sistema econômico nordestino e o chinês: compõem-se de camponeses esfaimados num nível tecnológico bastante primitivo. Mas a história conservaria a sua universalidade muito mais pela densidade de seu argumento do que pelas semelhanças que o cinema chinês tem com as características de um filme como Vidas Secas. Easy Rider, apesar de abordar um tema tão universal como a fome, o preconceito, não pode ser filmado por um diretor estrangeiro sem que se façam nele grandes adaptações. É a forma de fazer cinema empregada nele que tem que ser fundamentalmente alterada. Há os signos que determinam uma compreensão universal ou particular: em Vidas Secas, o boi, a carreta, a casa de pau-a-pique, o solo castigado, o ambiente inóspito; em Easy Rider, as grandes highways, as motos, a pintura da bandeira americana no tanque de gasolina da moto, os signos culturais (paz e amor, estética psicodélica, sociedades alternativas, rock). Há também a ética particular de cada lugar: os acordos de honra no sertão; as convenções comportamentais das tribos hippies, abordadas com uma grandiosidade planejada em Vidas Secas e com um naturalismo envolvente em Easy Rider.

Mesmo numa ação entre compadres, como é o que parece ter ocorrido no caso de Dennis Hopper e Peter Fonda, a temática é conduzida como um projeto comercial com pretensões políticas, produzida com a intenção evidente de descrever um aspecto da realidade social de um determinado momento histórico de seu país. Fica claro que a estória em questão aplica-se àquele momento específico da história dos Estados Unidos. A obra de Nelson Pereira dos Santos desenvolve-se à margem da história, descreve uma situação que tanto pode pertencer ao Brasil de 1900 como no Brasil do ano 2000. Quando uma obra atinge esse nível de universalidade, os anos não importam, o que importa é a idéia que ela transmite. O que não deixa de se aplicar também a Easy Rider - embora, acho eu, em menor escala - a idéia que esse filme transmite ainda não parece pertencer a um passado tão longínquo.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Aqui dentro

Já faz seis dias que não saio
da aridez deste encantamento.
Já decorei todos os tacos do assoalho
e as rachaduras deste apartamento.

Os dias não parecem ruins ou piores.
Nem o clima, nem o tempo, nem o vento.
Nem a condenação nos olhares,
nem a falta de sentimento.

Da janela do oitavo andar,
os problemas me parecem distantes.
Já não me parece absurdo pular,
nem voar por um instante.

Fechei a porta do corredor,
joguei a chave no encanamento.
Minha vida desceu pelo elevador
e eu fiquei
trancado 
aqui dentro.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Um homem, uma mulher e um batom

Nem mesmo quando a moça de saia vermelha cutucou o braço da amiga ao lado ele se perturbou. Continuou impassível, barriga encostada no balcão, o rosto de pedra a fitar um horizonte imaginário, muito além das prateleiras e mostruários que ocupavam o espaço físico à sua frente.

Nem mesmo os cochichos e risinhos mal abafados abalaram o fluxo dos seus pensamentos. Permaneceu solitariamente cercado pelas moças, senhoras, atendentes. meias, cosméticos, espelhos e, embora habitasse agora uma das galáxias do universo feminino, não se sentia desconfortável ali.

Nem mesmo as perguntas que a balconista metralhava simpaticamente conseguiam afastar a imagem da mulher que dominava a atenção de sua mente. Simplesmente deixava que flashes dos momentos que partilharam povoassem suas memórias, invadissem escandalosamente suas defesas, arrasassem a sua racionalidade. Percorria um corredor íntimo, conhecido só pelas pessoas que se amam. Ia encontrando secretamente aquele perfume de adolescente, aquele corpo inviolado pelos anos, aquela sutil sensualidade irresistivelmente ingênua. Aqueles encantos, que só ele desfrutava naquele particular pedaço do tempo, inundavam completamente o homem em que ele se transformara agora.

O fato de ser casado com outra mulher não o incomodava nem um pouco; nem conseguia dissipar uma única molécula do sentimento que uma menina de quinze anos despertara nele - homem talhado num tempo que lhe parecia cada vez mais remoto. E talvez não fosse capaz de compreender, e ele já se conformara com isso, a impossibilidade de cativar perpetuamente aquele ser que ele tanto amava. Muito menos admitir que essa mulher um dia encontrasse um homem mais jovem, mais adaptado, menos jurássico. Assim é a vida. Os velhos vão; os novos vêm. Movimentava-se automaticamente, recolhendo o embrulho; agradecendo à balconista; guardando o troco; cruzando a cidade dentro do seu carro; virando a chave na fechadura da porta de sua casa; essas atividades mundanas ele deixava para os ossos, músculos e alguns nervos mais subalternos. O melhor de si ele deixava para outras coisas mais importantes da vida, representadas no sorriso da boca de sua filha, enfeitada pelo batom que ele comprara.

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Este texto ganhou o 1º lugar no 1º Concurso Literário Mario Quintana, promovido pelo Sindicato dos Funcionários da Justiça Federal – RS (SINTRAJUFE) em 2007

terça-feira, 10 de março de 2009

Sem carona

Foi num dia em que o vazio daquelas tardes de inverno se tornou insuportável. Decidi abrir o último álbum de fotografias na sua casa ainda não desbravado que se escondia desesperadamente em cima do roupeiro cor de bergamota. Finalmente encontrei o pedaço de sua vida que há anos tentava desconsoladamente identificar e comparar com a minha. Olhei para aquela sua foto na 101 com o pedaço de papel no colo. Aquele que você arrancou da porta do banheiro do restaurante e escreveu no verso: Garopaba. Rever aquela imagem foi como sentir dor numa perna amputada. O inextricável cabelo comprido quase encobrindo a magna intenção de começar a conhecer o mundo além do quintal e seus abacateiros, estampada gentilmente num rosto espinhudo, quase cadavérico. Meu olhar fugiu para o lado, buscando uma cumplicidade que não encontrei no abajur nem na cortina da janela. Expirei um ar antigo e velhaco dos pulmões, tentando esvaziar a mente dos vícios que os anos foram amontoando nas minhas idéias, artérias e roupas. E encarei de novo a foto, desta vez com coragem suficiente para não desviar os olhos de mim mesmo.

Um pirralho de quatorze anos, pensando que sabe tudo da vida, esticando o polegar na beira da estrada. O asfalto derretendo a sola do tênis; jeans embrulhando meia dúzia de quilos de carne magra, incapaz de esconder o corpo ossudo. Led Zeppelin retumbando no cérebro ainda despoluído pela neurastenia séria, rotineira e sem graça do mundo adulto. O compromisso firme de não ter compromissos. Essas sensações vazaram da foto assim que eu fechei os olhos, em busca do tempo perdido no baú das minhas lembranças. Assim eu viajei de carona para Santa Catarina quando consegui proclamar o primeiro suspiro de independência da família na minha vida.
Nem barraca eu tinha, desenrolava um cobertor e me esticava em qualquer lugar. Se fosse fácil, não tinha graça: o que valia a pena era a lenda. O universo inteiro se movimentando conforme o desejo momentâneo do meu pensamento mágico. Nada que um simples toque de uma “varinha” não resolva. Fome? Dê-lhe cachaça! Cansaço? Dê-lhe cachaça! Medo? Dê-lhe cachaça! Cachaça? Cachaça! E assim, quilômetros iam sendo engolidos, os dias chegavam azuis e tranqüilos e as noites eram dormidas sem muito frio. As cidades daquela época abrigavam alguns remanescentes  de um tipo de irmandade que se reconhecia pelo andar arrastado, inodoro e insípido, rumo ao infinito, típico daqueles que não estão muito interessados em saber para onde vão. Simplesmente uma questão de limites: os limites estão onde os colocamos. Então, tudo o que se tem a fazer é não pensar muito nisso e seguir adiante. Próxima parada? Para onde a carona levar.
Deixar que o destino mande na nossa vida é próprio de um tempo que pertence a algum lugar encantado das nossas memórias. Continuo desconfiando que Adão foi expulso do paraíso quando era adolescente. Marcado no inconsciente coletivo da humanidade está o mito do rito de passagem, uma condensação da época na qual já não somos mais crianças, mas também ainda não somos adultos. É o tempo de começar a aprender sozinho o que todo mundo passou a vida inteira tentando nos ensinar; é o tempo de conhecer os limites que separam a lenda dos fatos. E, pior do que isso, ter que decidir a escolha sozinho.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Pseudicanálise gráfica

O que há nos símbolos gráficos que pode nos ajudar a entender as pessoas e seus discursos ? Muitas vezes, a forma - e até mesmo o conteúdo - de uma frase esconde decisivamente a pessoa a quem queremos compreender. Freud foi um mestre na arte de desvendar o universo mais recôndito de seus pacientes, simplesmente através da análise do que essas pessoas falavam ou deixavam de falar. É possível desenvolver uma psicanálise do texto ? Se pensares como eu, que acho que tudo é texto, então estaremos de acordo: é possível uma psicanálise do texto porque tudo é texto. E se Herr Freud conseguiu montar toda uma estrutura explicativa acerca dos atos humanos analisando seus sintomas verbais e corporais (que também são texto), fazer isso com os sintomas expressos através da escrita (alguém aí duvida que a escrita é texto ?) pode ser factível. Certo ? Se estivermos de acordo quanto à premissa de que tudo é texto, podemos prosseguir. Se não, pelo menos leia o resto porque a curiosidade matou o guarda.
Todas as ações humanas decorrem diretamente do que elas - as pessoas - pensam e da forma como elas pensam. Isso é insofismável. Premissa seguinte: as ações são expressões desses pensamentos, e, na minha concepção, isso é texto, no mínimo um texto comportamental. Admitamos que, na maioria das vezes, as pessoas são impedidas de expressar completamente o conteúdo de seus pensamentos. Freud diria (e disse mesmo) que isso se dá porque as pessoas vivem em sociedade, e que elas desenvolvem sistemas de controle para se adaptarem às condições próprias das sociedades em que vivem. Existem duas formas básicas de controle: o controle interno, exercido pelo Superego; e o controle externo, que são as pressões sociais, as quais se manifestam como regras de etiqueta, leis jurídicas, papéis sociais criados pelas expectativas dos outros, etc. Freud foi muito perspicaz ao se dar conta de que quando as pessoas são, de alguma forma, impedidas de expressarem completamente seus pensamentos, elas deformam as expressões desses pensamentos. Tá complicado ? Exemplo: muitos pacientes relatavam a Freud imagens oníricas que se apresentavam como obeliscos, torres, e outros objetos que tinham sempre uma forma parecida. Freud xeretou bastante no inconsciente dessas pessoas e descobriu que o que elas estavam pensando mesmo era no Bráulio (PS: lembram do "Bráulio" ? Pois é, este texto é daquela época). Bráulio de quem ? Isso não interessa, é assunto particular delas (ou deles). O importante é que, sendo uma impossibilidade social - em certos momentos, é claro - expressar completamente a idéia de Bráulio, essas pessoas deformavam a expressão dessa idéia, transformando o Bráulio num edifício ou num Zeppelin.
E se esse tipo de texto (a verbalização dos conteúdos inconscientes) pode ser analisado, então a escrita também pode. E o que há na escrita que expressa algum tipo de conteúdo inconsciente ? Podemos nos valer de muitas formas de análise. Podemos analisar a caligrafia, a ortografia, a sintaxe, a forma como a pessoa vai enxertando os adjetivos numa frase, a forma como ela contrai os verbos, a forma das letras empregadas, a forma como ela se refere sobre si mesma; em suma, qualquer coisa pode ser o indicador que procuramos. É só procurar as estruturas que estão, implícita ou explicitamente, presentes no texto. Só para comparar: se entrarmos num quarto completamente desarrumado, sujo e com uma aparência de Hiroshima-depois-da-bomba, é fácil adivinhar que ali mora uma pessoa preguiçosa, relaxada e que talvez não ultrapasse a idade mental de um protozoário. Agora, se entrarmos num quarto limpo, organizado, e bem cuidado ... é claro, estamos no ambiente natural de um chato. Pois bem, a forma de expressão que analisamos foi a aparência física de um ambiente, e deduzimos alguma coisa sobre a pessoa que vive nele. Não descobrimos se ela é preta, branca, amarela, vermelha ou um arco-íris; mas descobrimos alguma coisa sobre o que ela pensa, e como pensa. Minha teoria é que ao fazer isso, nós lemos um dos textos possíveis da pessoa que vive neste quarto.
Dito isso, vamos em frente, como dizia o Senna segundos antes da curva. A premissa agora é que há um universo possível de comparações que não usamos normalmente. Comparemos discursos, mas de um outro ângulo. Tomemos os símbolos gráficos como expressões do inconsciente das pessoas. Mas não todos, é claro, porque todos denotam alguma coisa, mas, para nossa bolinha, vamos pegar apenas os mais expressivos: "!" e "?". Alguém aí duvida de que esses são os símbolos gráficos mais usados que são capazes de denotar fortemente a intenção de uma pessoa ? Sim ? Não ! Não ? Sim !
Mas não simplesmente aqueles discursos: "Coma direito, guri !" ou "Que horas são ?" Falemos daqueles discursos em que há uma atitude ideológica que pode ser sintetizada por esses significantes. Assim como uma pegada na areia é um indício (ou, tecnicamente, "índice", como diriam os Lacanianos) de que alguém passou por ali, o "!" e o "?" denotam que alguém expressou uma intenção com um certo grau de intensidade que pode ser consciente ou inconsciente; e essa intenção obedece a um tipo de posicionamento ideológico que se traduz, dialeticamente falando, na conservação de um conceito ou na sua destruição. Viajei, né ? Atendendo a inúmeros pedidos de fãs, explicarei melhor essa bagunça no próximo parágrafo.

PRÓXIMO PARÁGRAFO

Vejamos o caso do "!": um instrumento quase bélico de expressão de autoridade, um símbolo que avisa: "se não cumprires essa ordem, as conseqüências podem ser terríveis". Denota que o sujeito que faz uso desse instrumento quer ver o seu pensamento executado; quer que sua lógica seja preponderante sobre a dos outros. Mesmo nos casos em que a ordem é bagunçar o establishment, de promover o caos, a lógica do enunciador é estabelecida no sentido de preservar o seu pensamento. Mas isso não ocorre somente quando o símbolo "!" vem posposto na frase. Acredito que, devido aos sistemas de controle que essa pessoa desenvolveu durante a sua existência, o símbolo muitas vezes fica escondido na cabeça e não é expresso "graficamente". O que se pode analisar, então, é o texto que as pessoas constróem para dissimular suas intenções e atingir os resultados através de um discurso pretensamente sugestivo. Exemplo: um professor, durante anos, chega na aula e expõe a matéria sempre da mesma maneira, sempre na mesma ordem, sempre com os mesmos conteúdos, sempre com o mesmo método expositivo. Esse cara está colocando um "!" na relação que mantém com seus alunos. Está conservando o conceito de que ele tem a verdade e os pirralhos à sua frente não têm mais nada a oferecer do que uma simples comprovação das suas idéias. Mas há formas mais sutis de empregar o "!" numa relação social. Quando procuramos pesquisar algum assunto que não faz parte do currículo, somos sutilmente desencorajados a fazê-lo porque vamos investir tempo, esforço e paciência num projeto que, na grande maioria das vezes, não obterá reconhecimento acadêmico e talvez até nos atrapalhe bastante na vida universitária. O que isso denota ? Que a instituição colocou um "!" na relação que mantém com seus alunos, pois o que importa é a manutenção da idéia que ela tem de se fazer ciência. Não importa que talvez a transgressão desses princípios produza mais resultados, porque de muitas cabeças pode sair muito mais coisas do que de apenas uma. O que o "!" denota, fundamentalmente, é que o conceito que eu tenho é mais importante que o seu; e isso é a base da conservação das instituições, das pessoas e das suas idéias. Pois nada é mais importante do que manter a velha hierarquia, a velha ordem, a velha estrutura, o velho conceito, para quem usa o "!" na sua relação com os outros. Quem usa o "!" tem os olhos na nuca: só vê as coisa do passado - não que não se deva fazer isso: embora elas sejam importantes, devem servir para a construção do futuro. Mas, quando tudo parecia perdido, aparece outro sinal gráfico para confrontar, afrontar e enfrentar o "!": o "?" O que há por trás de quem usa o "?", além do bafo na nuca ? Não perca nosso próximo episódio.

PRÓXIMO EPISÓDIO

Se há alguém capaz de se opor semanticamente ao significante "!", esse alguém é o "?" Porquê ? Porque sim ! Felizmente Hegel nunca deitou os olhos nos símbolos gráficos, pois senão a festa estaria feita quando ele se deparasse com essa dupla. Porquê ? Porque se o "!" expõe a autoridade, denunciando a sua posição retrógrada e simplista, o "?" nada mais é do que o símbolo do questionamento. E o questionamento é o ácido que pode ser capaz de dissolver a preponderância de um conceito sobre outros. Por isso, esse símbolo é, muitas vezes, banido das mentes humanas, numa tentativa de unificar a patetice, de nivelar por baixo. O "?" envolve uma grandeza de caráter que começa no simples reconhecimento da própria ignorância. "Só sei que nada sei" . Então pergunta, ô mané ! Pois é, o "?" implica reconhecermos que somos manés, e que temos muito a aprender. Essa é a posição de quem, ideologicamente falando, tem os olhos voltados para o futuro, para a reorganização do caos, para a comparação entre conceitos, para o entendimento real do que se passa com os outros. Humanisticamente falando, é a posição de quem se importa com o pensamento de outros seres.
Mas, muitas vezes, o "?" pode ser um fator altamente subversivo porque se pode perguntar coisas que não têm respostas, ou pode-se perguntar coisas cujas respostas sejam muito dolorosas para quem responde.
E há ainda, aqueles que, sub-repticiamente, transformam o "!' num "?", fazendo perguntas que já estão respondidas, num recurso de imposição das suas idéias. Exemplo ? Dois pontos: "O senhor não sabe a resposta dessa pergunta ? " Mas esses casos não passam de desvios da idéia central. O certo é que, em algum momento da história do homem, percebeu-se a necessidade de representar essas atitudes - a dúvida e a ênfase das proposições - através de elementos gráficos. O conteúdo desses elementos pertence a um repertório de conceitos que ainda resiste ao passar dos séculos. Isso significa que o homem não mudou muito em todos esses anos ?

ATENÇÃO !
INTERROMPEMOS ESSE TEXTO PARA TRANSMITIR NOTÍCIAS URGENTES DE BAGNÃODÁ,
CAPITAL DO ARAQUE.
INFORMA STEVE AQUI,
O NOSSO CORRESPONDENTE DE ARAQUE:

"O presidente do Araque, Mustafá Ali embush, acaba de sancionar a lei que regulamenta o imposto sobre a circulação de idéias. A partir de hoje, quem pensar demais - e espalhar o cheiro fétido de suas elucubrações - deverá pagar um por cento de imposto ao Banco Nacional do Araque, em cheque ou papéis do tesouro nacional. As universidades, os professores e os alunos de Araque não serão atingidos pela medida."