Servido a partir das sete horas da manhã, o café do Hotel Auto Hogar é fantástico. Embora organizado de forma discreta, tem tanta coisa, incluindo aí dispositivos de aquecimento e preparo de quitutes que nunca tínhamos visto antes, que é difícil até de se decidir o que e como atacar primeiro. Entramos, então, com a clássica taça de café com leite e fomos percorrendo os bolos, chimias, pães, embutidos, cereais, frutas ... até dar de cara com o “bulldog do Auto Hogar”. Um homem de seus quarenta e cinco anos, um metro e setenta de frieza absoluta, beirando a antipatia, atarracado e extremamente zeloso com a sua função dentro da estrutura da instituição hoteleira: administrar a logística das centenas de opções alimentícias do hotel. Percebia-se que a seu comando o staff da cantina se entregava de corpo e alma. A um simples olhar do “comandante”, materializava-se imediatamente um funcionário fardado que resolvia a demanda do cliente do hotel em segundos, ao final dos quais evaporava entre os corredores do restaurante. Um código corporativo baseado no repertório de olhares firmes do sargentão. Mas, vejam só ... exatamente por causa disso, tudo ali naquele pedaço do mundo - a cantina do Auto Hogar - funcionava que era uma beleza. Até que os tupiniquins aqui resolveram levar um reforcinho para o almoço. Escolhemos uma espécie de bolinho que vinha ensacado de fábrica, hermeticamente embalado, perfeito para uma longa permanência na mochilinha de passeio. Numa bobeada do bulldog, embolsamos duas daquelas maravilhas no jaquetão interno da parca. E continuamos maravilhadamente a desfrutar das delícias do manjar matutino. Mas o bulldog não era nada bobo. Num lampejo de pura intuição, o cara percebeu que tinha alguma coisa errada na contabilidade das nossas “Entrada e Saída”, da soma do que tínhamos colocado das mesas nas bandejas menos a soma das embalagens que sobrara em nossos pratos. Caracas, o cara tinha se flagrado que faltava a embalagem de DOIS BOLINHOS. E ficou fungando em volta da nossa mesa, visivelmente desconfiado. A nossa sorte é que ele não tinha testemunhado quando pegáramos os bolinhos. Mesmo assim, ele ficou alguns minutos “farejando” algo numa nuvem imaginária em torno de mim e da Maria, saiu insatisfeito porque não tinha como provar nada e ficou nos encarando enquanto descíamos a escada que saía do restaurante, naquele legítimo ar de filme B “eu sei o que vocês fizeram ...”. Bah, amedrontador. Nunca mais pegaríamos UM PALITO de alguma mesa daquele restaurante, credo! No dia seguinte, testemunhamos uma pobre mulher que teve a mesma ideia mas faltou-lhe malandragem para fazer a coisa. Colocou uma tortinha no bolso e continuou comendo. O bulldogo foi até ela e passou-lhe uma carraspana que a gente só de ver de longe já tremeu, imagine se fosse com a gente ....
Nosso planejamento para Barcelona estava prejudicado por dois problemas incontornáveis. Tínhamos reservado quatro noites para esta cidade. Mas, destas quatro noites, uma noite, a primeira, era a da chegada de várias horas viajando de avião (Porto Alegre - Rio de Janeiro - Madrid - Barcelona). Estaríamos tão cansados e ainda teríamos mesmo só a noite para aproveitar ... ou seja, não iria render nada mesmo. O segundo problema é que no feriado do dia primeiro de janeiro na Europa tudo - comércio, museus, alguns parques, monumentos, palácios, etc - fecha ou funciona parcialmente. Este dia teria que ter uma programação bastante flexível, já que muita coisa poderia não estar disponível. E uma terceira circunstância - que não era propriamente um problema mas que roubaria um dia mais da permanência em Barcelona - era a nossa intenção de ir a Figueres, conhecer o Museu Dali. Então sobravam mesmo, no duro, dois dias completos para Barcelona, sendo que um deles seria feriado.
Simplificamos.
Pois Barcelona, na costa marítima oeste da Espanha, tem sido ocupada, colonizada e influenciada por vários povos mediterrâneos ao longo de milhares de anos. Vestígios de povoamento naquele lugar vêm desde o final do Neolítico (2000 a 1500 a.C). A lenda diz que a cidade fora fundada por Hércules, 400 anos antes da fundação de Roma. Ocupada pelos cartagineses, depois pelos romanos, considera-se como data oficial de sua fundação o ano I de nossa era. No século seguinte, o imperador Cláudio ordena a construção de muralhas na cidade e cem anos depois a população de Barcino (nome dado pelos romanos) já era estimada entre 4.000 e 8.0000 pessoas. No século V é conquistada pelos visigodos e em VIII pelos árabes e libertada no século seguinte pelos carolíngios. E cem anos depois .. pumba! Lá vêm os muçulmanos e a dominam novamente.
No século XIV, iniciou-se uma rivalidade entre Castela e Aragão (Fernando e Isabel) que jogaria Barcelona numa decadência até lá pelos anos de 1800, quando começa a industrializar-se e retoma sua pujança. Com os jogos olímpicos de 1992, quando replaneja seu traçado urbano e moderniza-se em todos os sentidos. Essa confusão étnica e cultural de predomínios sobre a cidade se mistura e se funde numa arte extremamente marcante, um barroco mal-comportado, um mourisco irreverente, irredutível às escolas clássicas. Até a língua, o catalão - às vezes parecendo um árabe tosco; às vezes parecendo um espanhol misturado com português, francês -, é uma salada de vários línguas, uma bagunça total. Você entra nos bares e ouve todo mundo falando num quase sussurro, tenta prestar atenção no que estão falando e não consegue “resolver” uma frase com três ou quatro palavras, embora elas lhe pareçam extremamente familiares. É o catalão. Talvez por isso o Modernismo tenha se sentido à vontade nesta cidade cosmopolita, onde se fala “por baixo do tapete” e não fica parecendo ofensivo. A gente vê também que pessoas que vêm do mundo todo se sentem à vontade ali, caminhando pelas ramblas ou simplesmente vagando nos parques. Mas não se iluda. Não há mendicantes ou vagabundos perambulando pelas ruas; não há chatos perturbando o trânsito; nem grosseirões falando aos berros com seus celulares nas calçadas ou no metrô. Não é qualquer pessoa que se sente à vontade em Barcelona. Mas como eu e a Maria adoramos ordem, respeito, boa convivência e educação, adoramos Barcelona e nos sentimos muito à vontade lá.
Nós e os modernistas. Viram como somos moderninhos ? Pois é. E no passeio que o ônibus ia seguindo por avenidas e ruelas uma mais linda que a outra, coisa pra turista se encantar mesmo, a curtição era apreciar cada prédio mais estranho, cada portão de ferro mais estrambólico, cada estátua e monumento mais impressionantemente bolados, rebuscados, com cara de novo e antigo ao mesmo tempo.
Eu ia no ônibus fotografando tudo e lembrando daquelas ilustrações que eu via nos livros da coleção Tesouro da Juventude, “séculos” atrás, de casinhas em forma de sapato, edifícios construídos em árvores, aquelas imagens doidas dos contos de fadas. Mas com uma estética do detalhe bastante parecida, tematicamente voltada e focada para os preciosismos da natureza, que são por natureza, irrepetíveis, únicos, ricos de citações e que só usa as linhas retas quando extremamente necessário. E, claro, adorando o traçado urbano da cidade, com avenidas largas, um trânsito forte mas não caótico, muros romanos convivendo com prédios de vidro e aço, mais os sobradões malucos dos modernistas catalães. Não à toa, Dali montou sua base e viveu décadas pertinho de Barcelona.
Até que o ônibus chega na sua primeira parada e você leva um susto. Uma montanha de pedra esculpida, rodeada por monumentais guindastes com seus imensos braços, perfilados como se pertencessem ao cenário religioso: El Temple Expiatore de La Sagrada Família, a magnífica igreja Sagrada Família, que está há mais de cem anos sendo construída - desde 1882 -, e parece que vão levar mais cem anos para terminá-la.
Lembro de ir seguindo uma voz maravilhosa pelas ruelinhas, verdadeiros labirintos de pedra, até dar com uma contralto cantando nas escadarias de uma igrejinha escondida entre becos e mais becos, ecoando nas paredes centenárias, além de pintores, escultores, estátuas humanas, ... inúmeros artistas.
E tudo isso tendo o cuidado de não ingressarmos nas ramblas, que seriam o passeio do feriado, dois dias mais tarde. Pois acabamos chegando ao Museu D’Història de La Ciutat, que estava apresentando uma exposição sobre “La Arqueología en Barcelona”. À mostra, o solo do museu, escavado, com as colunas de pedra romanas iluminadas e admiradas através de passarelas erguidas sobre as próprias escavações, expondo paredes, salas, ruas, calçadas, adegas ... a vida como ela era nos séculos romanos da cidade, expondo o esqueleto histórico de Barcelona.
Mais um pouquinho e vimos a fachada imensa da catedral de Barcelona, ainda escondida atrás de tapumes e guindastes. Então, numa avenida mais larga, que desconfio ser a Diagonal, entramos numa lancheria fashion. Olhamos em volta e vimos que o público era uma coisa sui generis, gente de todas as tribos. Cada partição reunida num “nicho” do superbar. E cada estilo de viajante comendo de acordo com a sua “bíblia”. Os que comiam sanduíches naturebas, os que comiam só vegetais, os que estavam só pelo café, os que traziam pão de outro lugar e só pediam refri .. e nós com os nossos bolinhos roubados do bulldog. Pedimos um complemento e mandamos brasa. Em segundos a Maria já tinha usado o banheiro e estávamos prontos para a segunda parte do dia. Pegamos la Ruta Roja novamente e descemos em frente à Casa Milà, mais conhecida no mundo todo como La Pedrera. Ainda faltavam Montjuic e o Museu Marítimo. Credo de novo. Chegamos na parada do Bus Touristic já anoitecendo. O céu escuro, as sombras baixinhas. Na parada, uma multidão pra entrar no ônibus, mas, como sempre, eu e a Maria éramos os primeiros da fila. No segundo andar do ônibus a vista estava bem bacana, dando a tudo o tom avermelhado daquele lusco-fusco da tardinha. Mas para a máquina, já estava escuro demais, não tinha mais foco possível. Subimos o Montjuic já enxergando somente coisas que tinham uma forte iluminação. Mas era pouco, o legal mesmo é subir pelo teleférico vindo lá do porto, passando por cima de praticamente toda a cidade. Não deu. Mas terminamos o passeio descendo até o porto, passando pelo Monument a Colón e entrando no museu marítimo. Bom, que Barcelona vive na costa mediterrânea e que há séculos tem intimidade com as lidas marítimas, isso pode não ser óbvio para todo mundo.
Ocupando um antigo edifício militar desde 1929, foi ampliado de 4000 m² para 10000 m² em 1941 e, entre as peças, exibe desde submarinos, navios, instrumentos náuticos, obras de arte, cartografia, bibliotecas até um modelo em escala natural de uma galera real do Don Juan da Áustria - com 60 metros de comprimento, 59 remos, ricamente decorada - um verdadeiro desbunde. Vale uma visita virtual: www.mmb.cat. Saímos dali noite escura já, e loucos de fome. Achamos um restaurantezinho na avenida e fomos pro hotel, tomar um vinho e curtir uma telinha. Deu pra cansar. Nos primeiros acordes do programinha brega de entrevistas da TV catalã (que nós não entendíamos patavinas) adormecemos com as taças cheias até a metade.
"Tesouros da juventude", hein? Vixe. Que memória.
ResponderExcluirAbração!