Europa. Voando de Madri para Barcelona. Quase cinco horas da tarde. Nesta época do ano, na Espanha, o céu já começa a dar mostras de que a noite vem vindo. A luz do sol atravessa o chão quase deitada. As sombras ficam compridas, meio fantasmagóricas até. Pouco antes da aterrissagem, ainda grudados nas janelas do avião, passáramos perto e ficáramos maravilhados por uma pequena cadeia de montanhas rochosas com um aspecto bastante esbranquiçado, que produzia um efeito visual bem interessante e bonito com aquelas sombras espichadas de fim de tarde. Depois soubemos que aquela cadeia de montanhas se chama Montserrat, uma formação espetacular que serve de cenário natural para um monastério, descrito pelo folhetinho distribuído no escritório de turismo de Barcelona como um verdadeiro complexo turístico. A logística do lugar compreende desde o acesso ao parque turístico pelas rotas de metrô e trem até a exploração inteligente dos pontos de adoração religiosa, como do Santuário de la Virgem e do milenar monastério beneditino. Vi no papelzinho ainda que lá tem uma pinacoteca sensacional e que dá pra apreciar um coral de pequenos cantores em uma Basílica encrustrada entre panorâmicas e belíssimas montanhas rochosas. Ficamos loucos para ir visitá-la, mas com o feriado de Ano Novo, um monte de programas, passeios e pontos turísticos estaria fechado ou inacessível. E havia Dali, nos esperando em Figueres.

Se você quiser saber mais sobre Montserrat, neste site encontram-se todas as informações sobre o lugar ... dá até pra ouvir os sinos tocando e as crianças do coral cantando ... (SÉRIO!):
http://www.barcelona-tourist-guide.com/en/tour/montserrat-spain.html
Descendo do Boeing 737 da Air Europa, no aeroporto Barcelona (BCN), nem dá ainda pra sentir o impacto do peso dos mais de mil anos de civilização continentale, moldada desde muito antes do romanismo. Embora o porto de pouso de mais de trinta rotas internacionais seja um bastante discreto show do desenvolvimento tecnológico dos gringos, agora penso que, se fôssemos um pouco mais espertos como viajantes – no que ainda demandaria um bom tempinho até nos aperfeiçoarmos -, isso já deveria ser motivo suficiente para nos fazer abrir o olho. Digo “abrir o olho” para o que, às vezes, nos escapa da atenção e é o que realmente importa. Eficiência. Competência. Civilidade e consideração pelo viajante. Muito facilmente encontramos a saída e dali pertinho pegamos um táxi que nos impressionou pela limpeza e qualidade do carro, um mercedinho que não devia ter mais do que uns dois anos de praça. O motorista, muito bem educado e empenhado em nos parecer agradável, responderia solicitamente qualquer pergunta nossa ... desde que conseguisse entender um pouco mais do que a metade das palavras que nós tentávamos estruturar numa frase inteligível para o pobre espanhol. Então, claro, apelamos para a linguagem universal dos monossílabos, onomatopéias e recursos linguísticos não verbais, como a mímica italiana de braços e mãos. Conseguimos comunicar o endereço do hotel, sucesso absoluto.
E rumamos os doze quilômetros até o hotel curtindo a rodovia e a paisagem que ia passando pelas janelas do carro, em velocidade de cruzeiro flanando num tapetão de asfalto, escorrendo junto a tantos outros carros fluindo como células do sangue deslizando em artérias urbanas, um grosso caldo de veículos voando em silêncio. Uma ordem absurda. Dentro do táxi eu pensava se minha reserva feita por um site na internet, apesar das inúmeras confirmações via e-mail, pela nossa agente de viagens, que disse ser a E-Dreams uma empresa fidedigna. Nada disso chegava pra me convencer de que aquela reserva podia ser um golpe ... “Claro ... Ninguém poderia saber porque nós seríamos as primeiras vítimas ... E o que iria adiantar reclamar para sei lá quais autoridades de turismo ... Iríamos perder nosso dinheiro já pago mesmo ... uns trezentos euros por quatro noites ... e onde iríamos procurar outro hotel na última hora ? ... sacanagem ... e logo o único hotel que eu reservei pessoalmente ... por causa do feriado do Ano Novo ... logo esse !!! ... eu devia ter deixado a Fabiana ter comprado hotelaria em Barcelona ... putz ! .. logo o primeiro hotel da viagem ...“ e assim iam enveredando meus sombrios pensamentos, dentro de um túnel escuro de incertezas, dentro daquele táxi moderno dentro daquele movimento deslizante entre as outras hemácias daquela moderna rodovia. Enquanto isso, a Maria não tirava os olhos do novovelho mundo da janela.
Quando o carro encostou na frente do Hotel Auto Hogar, na Av. Paral.lel, ficamos bem satisfeitos em ver que era tudo verdade. Que o hotel existia. Era só entrar. Tá ... mas vamos dizer O QUÊ pro cara da recepção ? ? ... Demos uma treinadinha no espanhol que tinha nos guias. Cadê a frase aquela ? Cumé mesmo que se pronuncia ? Tá bom ... entramos.
Com aquela cara-de-cachorro-com-fome, arrisquei um espanhol quase sumido num misto de timidez e insegurança, mas saiu direitinho e o cara da recepção entendeu. “Pegorini, Ricardo ?” ... “Si, hai una reserva” ... Soltei a respiração. Pegamos as malas e seguimos o funcionário até o quarto. “Pegaram as malas ?” ... Sim, estávamos tão contentes que nem pensamos em pedir pro cara levar. E ele também nem fez questão de nos lembrar disso ... rsrsr. Mas chegando ao quarto, a impressão foi positiva.

Com uma belíssima vista para os varais e paredões dos outros edifícios, nós não estávamos (ainda) ansiosos para ficar longos períodos dentro de um quarto de hotel. O quarto era bem legal, afinal de contas. Com um banheiro imenso, um quarto com duas camas, bastante espaço, móveis de boa qualidade, uma infra da qual ainda sentiríamos saudades em alguns outros lugares da Europa. Nos instalamos, desemalamos as coisas, banho, roupa limpa, separamos os documentos, dinheiro e saímos para o nosso primeiro passeio de verdade pelas ruas de uma cidade européia.

A Avenida Paral.el é uma rua grande, mas não é uma avenida. Não tem canteirinho no meio. Parece mais uma Sete de Setembro do que uma João Pessoa. Caminhamos até a estação Drassanes , na esquina, e entramos a esmo na Carrer Nou de la Rambla, uma ruazinha estreita, mas com muita personalidade.

Aliás, logo de cara a Maria simpatizou com aquelas ruazinhas estreitinhas, vindas de um tempo que não parecia não se importar muito com o trânsito de carroças, muito menos de automóveis. Logo em seguida, vimos um mercadinho. Ali compramos um abridor de garrafas (pro vinho), um adaptador para as tomadas espanholas, diferente do meu adaptador argentino, comprado quando fui para a Patagônia com meu sogro (é, mas isso é OUTRA HISTÓRIA), e, claro, o vinho para antes do soninho. Caminhamos mais um pouco e achamos um belo restaurantezinho. Inho, inho, inho, mas com uma bisteca do tamanho de um urso. Jantamos maravilhosamente e voltamos para o hotel. Televisão espanhola é brabo. Um pouco menos brega que a italiana ... o que já é suficientemente breguíssimo ... rsrsrs ... mas conseguimos achar um filme antigo pra degustar o vinhozinho espanhol. E adormecemos vendo Dr. Jivago castelhando para uma Lara meio esganiçada, com aquele passo duro das palavras espanholas. Muy ajeno.
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