A véspera do reveillon deixava todo mundo, na cidade, num estado mental e espiritual diferente do normal. Uma inquietação, uma vontade de fazer algo que não ser consegue determinar direito o que é. Alguns descarregavam a tensão consumindo freneticamente tudo que ia aparecendo pela frente: souvenires, presentes, passeios, cultura, comida, arte, livros, roupas, quadros, música, caminhada pelas ramblas, pelos museus, pelas plazas; outros percorriam as estátuas vivas, pintores, patinadores, guitarristas, turminhas de todas as tribos imagináveis e - tá bom, usemos uma boa e velha obviedade ... - inimagináveis. Mais a decoração da cidade e uma esfuziante emoção pairando no ar, nos rostos. Comércio faturando. Tínhamos assim, naqueles instantes mágicos de pré-virada de ano, diversas forças convergindo para montar o cenário da festa. E para mim e para a Maria, uma festa revestida de uma circunstância mais mágica ainda por estarmos na Europa, lugar que há poucos anos nos parecia um pedaço inalcançável do mundo.
Pegamos cedo da manhã o trem da Renfe que nos levaria em quase duas horas de viagem para Figueres. Fui preparando o espírito na viagem tocando os velhos chorinhos no cavaquinho, pensando se nosso Jacob do Bandolim não seria um Salvador Dali. Ia viajando na possibilidade de se pensar no manejo e na criação das notas que viajavam na mente do Jacozinho tal como as cores iam se insinuando na mente do velho bigodudo. Eu percebia que os catalães ficavam intrigados com as melodias dos nossos chorinhos, acho que de uma certa maneira os intervalos das notas lhes pareciam familiares, mas não conseguiam reconhecer o ritmo. O nosso ritmo tem um gingado diferente das músicas negras a que os europeus estão acostumados a ouvir. Ainda mais o chorinho. E eu me divertia, enquanto tocava, sacando um tamborilar na poltrona, um pezinho batendo de mansinho no tapete do trem. Os gringos não resistiam. Coisas de brasileiro. E tranqüilamente saímos, tranqüilamente viajamos e tranqüilamente chegamos. Adoramos viajar de trem. Ponto.
Atravessamos a rua do Ayuntamiento (Prefeitura), em frente à estação e já estávamos no centro da cidade. Decidimos que o mais legal seria caminhar e sentir na pele e no rosto o astral da cidadezinha. Ruazinhas estreitas como sempre, com minúsculos postezinhos impedindo estacionamento de carros nos dois lados da rua, pra não trancar a passagem. Diversas ruas destinadas exclusivamente para os pedestres. Com aqui e ali uma estatuazinha maluca ou uma escultura abstrata, quebrando a paisagem de bairro pequeno-burguês. E ligeirinho você chega à praça central da cidade. Com um parquinho, uma pista de patinação em gelo, barzinhos com mesinhas nas calçadas, um cineminha, hotéis pequenos, um museu de brinquedos que nos fez lembrar demais das NOSSAS crianças.
Sentimos que iria ser tortura demais ficar olhando aquelas preciosidades infantis pensando que estávamos a dez mil quilômetros de distância dos nossos filhos. Eram os piores momentos da viagem para nós. Há outros que não sofrem tanto assim.
Mas a maior atração de Figueres (cidade natal de Dali) é o Teatro Museu Dali, lugar cheio de fachadas, irreconciliáveis num sentido estético estreito, que ele mesmo projetou e trabalhou de 1960 até meados dos anos 80, quando sua mulher Gaia morreu.
Dali foi uma figuraça ... Desperta amor e ódio, há quem o venere como há também quem o deteste. Salvador Domingo Felipe Jacinto Dali e Domenech, 1º Marquês de Púbol, foi expulso até do círculo dos surrealistas da época (1939) por não se considerar um marxista, mas um "anarco-monarquista". Quem entra neste museu não vai encontrar somente quadros do gênio catalão.
Todo o prédio, quartos, salas, instalações, pátios, fachadas, monumentos, etc, está impregnado de uma atmosfera que parece ter sido sonhada, e não construída. Palavras são pouco pra descrever. Vejam as imagens. Mas também as imagens serão pouco pra descrever. Falta o movimento das maquininhas malucas, faltam as paredes, faltam as plantas, falta o "ohhhh !!!" das pessoas que visitam o museu. Falta algo que não se imprime em páginas, fotos, filmes ou impressões sensíveis. Algo que atravessa o seu coração, se você não o tiver muito impermeável.
Achei no Youtube um vídeo que pode ajudar a entender um pouco o que é penetrar neste ambiente, que parece mesmo tentar representar sonhos, pesadelos, maquinações e pirações del bigodón: http://www.youtube.com/watch?v=bvsylRoLJ2E.
Mais tarde, lembro de ter visto em Madri, no museu Reina-Sofia (http://www.museoreinasofia.es/), numa sala especialmente estruturada para isso, uma projeção do “Cão Andaluz”, de Buñuel. Pra quem nunca ouviu falar, este filme começa com uma cena bolada certamente para tirar da sala as pessoas sem estômago para prosseguir: uma mão pega uma navalha e com ela corta o olho de uma pessoa. Credo ! O resto do filme é uma projeção em imagens e cenas - às vezes bastante desconexas; outras vezes querendo propositadamente parecer desconexas - de uma encenação teatral das teorias psicanalíticas, na época ainda culturalmente e socialmente extremamente impactantes e revolucionárias. Esquentadas por uma temperatura altamente erótica, mas ainda bastante ingênua na interpretação dos postulados da teoria freudiana, as cenas vão se sucedendo numa ordem direta quase infantilizada. Exemplificando um pouco pra não ficar só numa viagem espaço-sideral fora da casinha: um homem tenta desesperadamente assediar sexualmente (Id) uma jovem, mas está preso a um piano (que seria a sua consciência social, o Superego). Então fica arrastando aquele piano ridiculamente. Mas lembremos que se trata dos primórdios da popularização dos conceitos psicanalíticos. E lá, numa das cenas deste filme está o jovem Salvador, fazendo uma ponta entre os personagens de Buñuel sobre as teorias de Freud. Se você usar o prisma teórico da Psicanálise fica bem mais fácil e lógico tentar interpretar as imagens, os ambientes, as “associações livres” entre personagens, forças, energias, cores e temáticas das obras de Dali. Ou eu pirei na batatinha agora. Deve ser influência del bigodón.
O Theatro-Museu Dali começa antes de se penetrar em suas paredes. Nas calçadas em volta do prédio já se encontram inúmeras obras de Dali. São colunas, esculturas, detalhes, pseudo-fontes, loucurinhas aqui e ali. A atmosfera vai se entranhando em você. Você paga o ingresso, superorganizado o acesso. Você se dá conta que não está mais em corredores normais. Parece um gabinete do Dr. Caligari, só que filmando a cores e em terceira, quarta, quinta dimensões. Vai circulando um pátio redondo central, onde está a escultura do cadillac-e-a-gorda-com-chapéu-de-barco-com-guarda-chuva-na-ponta. Só pra ter uma idéia. Tinha que estar rolando ininterruptamente o Lucy in the Sky of Diamonds. Mesmo andando em corredores com forma, digamos de uma maneira bem elástica, “convencionais”, tem-se a sensação de que a cada dois metros entrou-se num universo diferente. Mudam as pinturas nas paredes, mudam as dimensões da sala, as luzes do ambiente, a iluminação das janelas, o piso, os corrimões, os marcos das portas, o desenho do tapete, os engenhos eletrônicos. À sua direita (ou seria à esquerda), dezenas de bonecos dourados em tamanho natural guardam as janelas que circundam o pátio central, aquele da escultura do cadillac-e-a-gorda... Mesmo quando o assunto ou o artista mudam, como no caso de Antoni Pitxot, artista e diretor do teatro-museu e Vice-Presidente da Gaia-Dali Foundation, que tem uma exposição da sua coleção das “pedras”ocupando uma das alas, não destoa absolutamente do universo fantástico de Dali.
Saímos meio atordoados lá de dentro. Trouxe para cada uma das crianças um castelo de papel para recortar e montar colando. Mas acho que quem vai acabar se divertindo mesmo com isso vai ser eu ... hehe ... bom, tentarei contaminar as crianças com isso. Veremos. Ainda tiramos um tempinho para experimentar um kebab, ultrarrecomendado pelo sogrão como um lanche gostoso, barato e altamente protéico. De origem árabe, é um pão recheado por salada, condimentos picantes e por raspas de uma mistura de carnes, que ficam numa espécie de salamito gigante envolvendo um cilindro grande. É super delicioso pra quem gosta de comida picante. Eu gosto, mas pago um preço por isso. E este preço exige um banheiro que não se localize a mais de dez minutos de onde eu tenha dado a última mordida. Ou isso, ou a sensação terrível, indo e vindo, de cólicas gasosas e doloridas, que se revezam em picadas estomacais e suores nas mãos. Mas este primeiro contato até que foi brando. Os sintomas se manifestaram de forma amistosa e foram um aviso suficientemente claro que eu não aprendi a interpretar corretamente, desleixo do qual iria me arrepender amargamente em outras ocasiões.
De volta para Barcelona, já noite, tomamos banho e saímos para curtir a virada do ano. Seria o dia para provarmos os famoso “tapas”, que diziam ser quitutes fantásticos, e que se completam acompanhados de uma boa bebida. Saí tão empolgado com toda aquela situação que até levei o Genésio - hehe, que é o meu cavaquinho, ô apressadinho ... pode tirar esse sorrisinho malicioso da carinha. E saímos pra achar um barzinho com mesinha na rua. Entramos no início da rambla e logo um guitarrista apareceu, cercado por um monte de pessoas, tocando um blues que era uma beleza. Formidável. Uma multidão na rua, passando pelos bares, todos lotados. Seguíamos a massa que serpenteava pelas vielinhas, pelas avenidas, pelas calçadas, pelas praças, pelos monumentos, pelos restaurantes, pelos bares. Em determinado momento, um africano me segurou pelo braço, apontou para o cavaquinho e disse: “Play it, play it!!”. Eu olhei em volta, um bequinho escuro, com um monte de estranhos mal-encarados me observando. Eu só olhei pro africano, dei uma ou duas palhetadas nas cordas do Genésiio, peguei a Maria pelo braço e saí dali, caminhando bem rapidinho. Até que, bem na principal das Ramblas achamos um restaurantezinho com mesinhas na rua. Sentamos e pedimos os tais dos “tapas”. E fiquei dedilhando o cavaquinho. Alguns sentavam e ficavam ouvindo, falando baixinho. Mas logo se desinteressavam. Sem chance de rolar um sambãozinho aqui ... a platéia era bem diferente daquela necessária pra uma roda de samba. Festeira, mas sem aquela espontaneidade e "amigabilidade" dos brasileiros. Deve ser por isso que eles se encantam com nós quando vêm ao Brasil. Em cinco minutos, conseguimos armar uma amizade para toda a vida com qualquer gringo de qualquer lugar do mundo. Só brasileiro mesmo. E chegaram os “tapas”. Seis fatias fininhas de queijo. Seis fatias fininhas de salamito. Seis rodelas de tomate. Nossa, por quase vinte euros. Iríamos ter que gastar duas vezes na janta naquela noite. Ficamos comendo uma rodelinha a cada 15 minutos pra curtir a fauna e flora dos passantes e decidimos ir indo vandoísticamente.
Passamos pelas ruas estreitinhas, cheias de bares tradidiconais, pelo Raval, uma região boêmia, cheia de bares de uma portinha só, que “engoliam” os transeuntes lá para dentro do prédio num corredor fininho, cheio de gente bebendo bebidas estranhas, azuis, verdes, amarelas, vermelhas, roxas ... Boates malucas, bares temáticos, restaurantes típicos, casas de vinhos, bebidas, tudo fervilhava como um formigueiro. Foi quando houve o “fechamento” do ano. Ainda ouvíamos os fogos explodindo no céu, as pessoas confraternizando, os carros buzinando cheio de jovens cantando, gritando, as turminhas dançando nas ruas. Estava eu filmando o “entrevero” na esquina da Paral.el, quase chegando no hotel, quando um cara foi se chegando na Maria. Puxou papo com ela. Aí decidi ir “preservar” o patrimônio. Num broken english, conversamos amigavelmente, desejando Feliz Ano Novo pra ele. Descobrimos que era um filipino trabalhando ilegalmente como lava-pratos em Barcelona. Estava procurando parceiros para festa. E nós, ingenuamente, demos corda pro cara. Estávamos nos retirando já, cansados, com um dia cheio de atividades no outro dia. E ele querendo festa. Depois de alguns salamaleques, papinhos tipo “é dura a vida de imigrante”, entramos no assunto festa e aí, querendo ser simpáticos, perguntamos como ia a questão “namorada” para ele, se era difícil não ficar sozinho. Ele respondeu que era muito difícil para um estrangeiro. As gurias não davam a mínima pra ele, por ser pobre, trabalhar como garçom e ser ilegal num país europeu. Então demos o fora da noite. “É, mas lá no Brasil você veria que as meninas são bem mais abertas, iriam, sim, dar bola pra você. As meninas brasileiras são sem frescura. Certamente achariam você um cara bacana.” Pronto. A cabeça do filipino deve ter se inflado de bandalheiras. Afinal, ele estava falando TAMBÉM com uma “menina” brasileira. A Maria, né, mané !??! .... todo faceirinho, ele largou: “Let’s have sex ??” .. E gente, pra desfazer este mal entendido levou mais uma hora de broken english. Ainda bem que o hotel estava bem pertinho. Numa bobeada do filipino, saímos andando rapidinho e ganhamos a recepção do Auto Hogar. Good dreams, man ! But with your own girlfriend, please!
Olá pegorini, Muito legal teu Ciber espaço, Obrigada por compartilhar belissimas imagens de arte. Aquele quadro gigantesco do Dali é demais!!!
ResponderExcluirme impressionou o seu fôlego na escrita!
parabéns
Renata