Crônicas europeias (revistas e ampliadas)
Só quem mora ou já morou numa casa que não é sua sabe o que
é isso. E não estou falando nem de aluguel. Falo de uma fronteira da vida,
início de casamento, quando nem para aluguel a gente tem dinheiro. Vive em casa emprestada por parente, num
recanto da vida em que o futuro é uma idéia longínqua, sem rosto; e o presente é
uma muralha de incertezas que se vai desdobrando cruelmente na nossa frente. Foi nessa fase de extrema insegurança
financeira que eu e a Maria decidimos garantir um teto, fosse qual fosse, desde
que nosso fosse cada tijolinho de suas paredes, cada ladrilho do banheiro, cada
maçaneta de cada porta. Entramos de
cabeça num financiamento do SFH. 15 anos pra pagar, prestação que não acaba
mais. Mas aí vai ser nosso, não é mesmo? E fomos viver a vida. Agora mais
tranqüilamente, claro, já teríamos onde recostar os ossos num dia do inverno da
nossa vida. E, pensem bem nisso, nunca
esqueçam, que há uma verdade superior à nossa teimosia: o tempo passa.
Inegociável. Os anos passam, a vida passa, os filhos nascem, os cabelos
embranquecem, os calendários na parede vão sendo trocados. Ano a ano, 15 anos.
Até que chega um dia em que, vejam só, a gente termina de pagar aquele
financiamento. E, sorte, esforço, ajuda de muita gente boa, nunca precisamos
recorrer ao JK financiado. Ficou ali, de ladinho, pronto pra qualquer coisa,
atento às tempestades da nossa vida. Nesses anos todos, alugáramos o JK e com este
dinheirinho completávamos o pagamento da prestação dele mesmo. 15 calendários depois, eis que num belo dia a
gente quita a dívida e fica com um ativo considerável sobrando. Um JK quitado. Quem
diria, hein? E agora? Que fazemos? Melhor vender e investir em algo pra usar
agora. Comprar uma casa na praia? Um
carro? Meu sogro matou a charada.
- Façam uma viagem. Com esse dinheiro, vocês podem fazer uma
bela viagem à Europa.
Dito isso por uma pessoa viajada, que conhece o mundo todo,
a idéia brotou arrebentando, esmagando e
dissolvendo qualquer outro tipo
de projeto em análise. Viajar para a Europa seria concretizar imagens mágicas
de cidades fantásticas, paisagens extravagantes e ambientes seculares vistos em
livros e filmes e regurgitadas na nossa imaginação. Desde este dia, de idéia
luminosa e noites sonâmbulas planando mentalmente sobre pagos europeus, até
pisar no 737 da Air Europa verteu mais um ano.
Mas que ano! Com que deliciada energia nos atiramos às
pequenas tarefas e obrigações do nosso empreendimento transcontinental. Precisa
passaporte. Faça-se passaporte. Precisa seguro-saúde. Faça-se seguro-saúde.
Precisa-se de guias e roteiros. Compre-se. Planeje-se. Precisa-se de malas.
Compre-se malas. Babá pras crianças. Babá. Casacos para o frio. Casacos. Cartão Internacional. Eurail Pass. Botas.
Mochila. Bolsos nas cuecas. Tudo foi providenciado com um brilho quase
aristocrático enfeitando cada um de nossos olhos.
E agora estávamos embarcando. Saboreando cada detalhe do
início da odisséia. Já no Galeão, esperando o horário do vôo, a Europa se
intrometia. Por exemplo: se fazia concreta na nacionalidade de alguns
passageiros na sala de embarque. Um casal lendo o “El País”. Serão mesmo
espanhóis? Um brasileiro paquerava uma italiana. Aquela ali, de batinha, parece
uma típica espanhola ... só faltam as castanholas ... Sei lá se eram mesmo
europeus todos aqueles que a gente imaginava ser naquela sala, talvez a Europa
estivesse apenas insatisfeita nos nossos desejos e já começava a transbordar
para nossos sentidos. O certo é que a gente até perdia a vergonha de parecer
piegas e pensava um com o outro: “isso tudo está sendo muito maravilhoso!”
A nossa primeira mancada de marinheiro de primeira viagem
foi acreditar que as regras são sempre cumpridas pelas companhias de viagem. Lição nº 1: DESCONFIE SEMPRE. Chegamos no Galeão às três horas da
tarde vindos de Porto Alegre, e fomos direto ao balcão da companhia nos
informar sobre horários - nosso vôo sairia às onze da noite. Um cartaz avisava
lá: “Check In para o vôo tal (o nosso) às 20h”. Muito bem, fizemos tempo no
aeroporto a tarde toda, olhando vitrines, livrarias, lendo, caminhando. Às 19
horas, fui dar uma olhadinha no balcão. Uma fila se espichava pelo corredor com
umas trinta pessoas já esperando atendimento. E umas trinta pessoas JÁ TINHAM
SIDO ATENDIDAS. Sacanagem! Acabamos pegando
os últimos lugares do vôo, duas
poltroninhas esmagadas na última fileira, grudadas nos banheiros do fundo do
avião. Resultado: Passamos as oito horas do vôo ouvindo a descarga do banheiro sendo
acionada ininterruptamente. Bom, pelo menos tem os filmes que a gente pode ver na
telinha atrás de cada poltrona, não é mesmo? Outra pegadinha. Você precisa
COMPRAR os fones de ouvido. Pois por indignação não compramos. “Oraondejáseviu?!”
Não vamos comprar e pronto! Além de pegar o pior lugar ainda vamos PAGAR pelos
fones de ouvido? Ora essa! Fizemos a coisa mais inteligente a se fazer naquelas
circunstâncias. Passamos as oito horas no pior lugar do avião e TAMBÉM ficamos
vendo os filmes sem fones de ouvidos, ouvindo o barulho da descarga dos
banheiros! Tão pensando o quê? Só porque somos tupiniquins? ... Mas se tivemos
estes pequenos percalços, pelo menos tivemos a sorte de passar a viagem ao lado
de uma pessoa bem legal. Um mineiro que estava indo visitar a noiva na França.
Muito bacana o rapaz. Educado, inteligente, gentil. Só tinha o importante defeito
de ter levado apenas um fone de ouvido particular. Será que ele não pensou na
possibilidade de encontrar um casal
também bacana como nós e que precisaria
desesperadamente de um par de fones de ouvidos durante a viagem para a Europa?
Não sei como existe gente tão despreparada viajando por este mundo afora.
Mas então eis que o 737 da Air Europa pousa no aeroporto
Barajas, um dos mais importantes do mundo, em Madrid.
Acorda, Maria Bonita! Hoje você vai fazer o café em Madrid.
España. Dá pra acreditar? E acorda logo! Temos 30 minutos
pra passar pela imigração e fazer a conexão para o nosso vôo para Barcelona.
Já! Corre! Meu Deus, como é grande este aeroporto! Tem ônibus? Espera! Tem ônibus! E as malas?
Já foram! Qual é o nosso terminal? Pergunta praquele cara ali! Mas pergunta em
espanhol! Passaporte! Ei! Esse cara tá furando
a fila! Faltam 15 minutos! Corre! Tem que tirar as moedinhas do bolso. Bota nesta
bandejinha. Passa nessa esteira. Tira o cinto! Passa pelo detector! Faltam 10
minutos! Deixa as moedinhas! Corre! É naquele portão! Naquela fila! A passagem!
Faltam 5 minutos! Aqui! Pô, mas é nessa fila ou naquela? Ali! Vem! Corre! ...
... ... Ufa! Conseguimos! Chegamos, Europa!
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