A capacidade de reconhecer, de amar e de temer a realidade desenvolve-se antes da aprendizagem da fala; sendo esta última caracterizada como a faculdade primordial no processo de ajuizar a realidade. Certo é que já existira uma consciência sem palavras, passível de se observar posteriormente, em indivíduos adultos, como estados regressivos sob a forma de "pensamento fantástico pré-consciente". Mais não é, contudo, do que um simples predecessor indiferenciado do pensamento, predecessor no qual ainda se vêem todas as características do Ego primitivo, quais sejam: o amplo alcance dos conceitos, as semelhanças tomadas por identidades, as partes por todos; e no qual os conceitos se baseiam em reações motoras comuns. Pode-se afirmar, sem dúvida, que toda a idéia singular, antes de formular-se, terá passado por um estado não-verbal anterior.
"... o inconsciente opera de acordo com disposições a que Freud deu o nome de 'processo primário' e o consciente de acordo com o 'processo secundário'. A lógica comum aplica-se a este último processo mas não ao primeiro; os mecanismos que podem ser observados em sonhos caracterizam a ação do processo primário."(Apud 1:328).
À luta pelo controle dos impulsos instintivos sem dúvida se pode acrescentar o desenvolvimento intelectual. Passa-se da fantasia emocional para uma realidade sóbria, explicável, e esta variação tem também a missão de combater a angústia. É aí que está o conteúdo racional da velha crença mágica de que se pode dominar aquilo que se pode nomear. A criança experimenta a aquisição da faculdade da fala como sendo a realização de um grande poder, aquisição que transforma a "onipotência do pensamento" em "onipotência das palavras". O pensamento emocional pré-lógico parece dirigir-se apenas pela aspiração à descarga e distancia-se da realidade concreta; mas é pensamento, por que está formado de imaginações - segundo as quais se praticam atos posteriores. Realiza-se por meio de imagens pictoriais, concretas, ao passo que o processo secundário mais se baseia em palavras.
Outra característica do pensamento arcaico é representada pelo simbolismo. O símbolo é consciente; a idéia simbolizada‚ inconsciente. Deslocamento é a característica que compreende o que chamamos de representação simbólica dentro da teoria psicanalítica. Nos adultos, uma idéia consciente pode servir de símbolo a fim de ocultar uma idéia inconsciente inconveniente: a idéia de um falo, se for inconveniente, poder ser deslocada para a representação de uma cobra, um avião, uma torre. O uso dos símbolos representa regresso a um estágio primitivo (mais antigo) do pensamento, regresso pelo qual se produzem as distorções pretendidas.
"Referimo-nos ao processo da gratificação fantasiosa, (...), é que uma fantasia, quer em devaneios, quer em sonho, na qual um ou vários desejos do Id se manifestam realizados, proporciona, realmente, uma gratificação parcial dos impulsos do Id que lhe dizem respeito e uma descarga parcial de sua energia."(2:79).
A natureza regressiva das representações simbólicas pode indicar dois fatos:1 - que os símbolos, constituindo resíduo de um modo arcaico de perceber o mundo, sejam comuns a todos os seres humanos;
2 - que o pensamento simbólico ocorra tanto nas ocasiões em que se tem de fazer distorções, quanto nos estados de fadiga, sono, psicose e, de um modo geral, na primeira infância, ou seja, em todos os estados nos quais se situam em primeiro plano as características do Ego arcaico.
O desenvolvimento da faculdade da fala transforma este estado "pré-pensamento" em pensamento lógico, organizado, mais ajustado, o qual segue as determinações do processo secundário. Representa passo decisivo para a diferenciação final de consciente e inconsciente para o princípio de realidade. O pensamento lógico, manipulador dos conceitos e objetos da realidade, pressupõe um Ego forte, capaz de adiar satisfações, de tolerar tensões; um Ego rico em contracatexias (capacidade de resistir a impulsos ou pulsões primitivas) e disposto a julgar a realidade conforme a sua experiência. Fraco que esteja o Ego, cansado, adormecido, sem confiança na sua própria realidade, desejoso de um tipo receptivo de controle, neste caso o tipo pictorial de pensamento atrairá mais do que a inteligência objetiva: fica fácil entender que quem esteja fatigado prefira um filme a um jornal, uma revista ilustrada a um livro técnico. É neste ponto que "As profundas análises que Freud fez do simbolismo do inconsciente esclarecem também os diferentes caminhos pelos quais se realiza o simbolismo da linguagem."(3:92).
Percebe-se, hoje em dia, o alastramento de uma semiologia "onírica", ou seja, formas de comunicação profundamente vinculadas ao processo primário, onde imagens pictoriais suplantam sensivelmente a linguagem relativa ao processo secundário. É o império das formas visuais, das imagens contundentes, da ação em detrimento do pensamento lógico. Parece que, através de uma "infantilização" regressiva, tornou-se praxe e tremendamente lucrativa a comercialização de obras comunicativas onde a fotografia, os planos milimetricamente estudados, os enquadramentos perfeitos traduzem a substância essencial de uma nova abordagem em relação ao espectador. Talvez seja a atualidade de um mundo a abrir as portas de uma nova forma de percepção, uma semiologia do terceiro milênio. Não nos cabe julgar a validade dessa emergente indústria do processo primário e sim, lançar as raízes de uma análise isenta de preconceitos e submissão a essa estrutura lingüística que agora norteia nossos meios de comunicação.
2. BRENNER, Charles. "Noções básicas de Psicanálise". 3. ed. Rio de Janeiro, Ed. da Universidade de São Paulo, 1975.
3. DAVIDOFF, Linda L. "Introdução à Psicologia". São Paulo, McGraw-Hill do Brasil, 1983.
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