domingo, 19 de abril de 2009

Crônicas européias – 3 – BARCELONA_02

Barcelona - 2007, 30 de dezembro

Servido a partir das sete horas da manhã, o café do Hotel Auto Hogar é fantástico. Embora organizado de forma discreta, tem tanta coisa, incluindo aí dispositivos de aquecimento e preparo de quitutes que nunca tínhamos visto antes, que é difícil até de se decidir o que e como atacar primeiro. Entramos, então, com a clássica taça de café com leite e fomos percorrendo os bolos, chimias, pães, embutidos, cereais, frutas ... até dar de cara com o “bulldog do Auto Hogar”. Um homem de seus quarenta e cinco anos, um metro e setenta de frieza absoluta, beirando a antipatia, atarracado e extremamente zeloso com a sua função dentro da estrutura da instituição hoteleira: administrar a logística das centenas de opções alimentícias do hotel. Percebia-se que a seu comando o staff da cantina se entregava de corpo e alma. A um simples olhar do “comandante”, materializava-se imediatamente um funcionário fardado que resolvia a demanda do cliente do hotel em segundos, ao final dos quais evaporava entre os corredores do restaurante. Um código corporativo baseado no repertório de olhares firmes do sargentão. Mas, vejam só ... exatamente por causa disso, tudo ali naquele pedaço do mundo - a cantina do Auto Hogar - funcionava que era uma beleza. Até que os tupiniquins aqui resolveram levar um reforcinho para o almoço. Escolhemos uma espécie de bolinho que vinha ensacado de fábrica, hermeticamente embalado, perfeito para uma longa permanência na mochilinha de passeio. Numa bobeada do bulldog, embolsamos duas daquelas maravilhas no jaquetão interno da parca. E continuamos maravilhadamente a desfrutar das delícias do manjar matutino. Mas o bulldog não era nada bobo. Num lampejo de pura intuição, o cara percebeu que tinha alguma coisa errada na contabilidade das nossas “Entrada e Saída”, da soma do que tínhamos colocado das mesas nas bandejas menos a soma das embalagens que sobrara em nossos pratos. Caracas, o cara tinha se flagrado que faltava a embalagem de DOIS BOLINHOS. E ficou fungando em volta da nossa mesa, visivelmente desconfiado. A nossa sorte é que ele não tinha testemunhado quando pegáramos os bolinhos. Mesmo assim, ele ficou alguns minutos “farejando” algo numa nuvem imaginária em torno de mim e da Maria, saiu insatisfeito porque não tinha como provar nada e ficou nos encarando enquanto descíamos a escada que saía do restaurante, naquele legítimo ar de filme B “eu sei o que vocês fizeram ...”. Bah, amedrontador. Nunca mais pegaríamos UM PALITO de alguma mesa daquele restaurante, credo! No dia seguinte, testemunhamos uma pobre mulher que teve a mesma ideia mas faltou-lhe malandragem para fazer a coisa. Colocou uma tortinha no bolso e continuou comendo. O bulldogo foi até ela e passou-lhe uma carraspana que a gente só de ver de longe já tremeu, imagine se fosse com a gente ....

Nosso planejamento para Barcelona estava prejudicado por dois problemas incontornáveis. Tínhamos reservado quatro noites para esta cidade. Mas, destas quatro noites, uma noite, a primeira, era a da chegada de várias horas viajando de avião (Porto Alegre - Rio de Janeiro - Madrid - Barcelona). Estaríamos tão cansados e ainda teríamos mesmo só a noite para aproveitar ... ou seja, não iria render nada mesmo. O segundo problema é que no feriado do dia primeiro de janeiro na Europa tudo - comércio, museus, alguns parques, monumentos, palácios, etc - fecha ou funciona parcialmente. Este dia teria que ter uma programação bastante flexível, já que muita coisa poderia não estar disponível. E uma terceira circunstância - que não era propriamente um problema mas que roubaria um dia mais da permanência em Barcelona - era a nossa intenção de ir a Figueres, conhecer o Museu Dali. Então sobravam mesmo, no duro, dois dias completos para Barcelona, sendo que um deles seria feriado.

Simplificamos. Fomos pro Barcelona Bus Touristic. Se você não tem muito tempo para conhecer a cidade, o ônibus turístico pode ser a melhor opção para ter uma visão geral do lugar que se está visitando. Se você não conhece, estes ônibus especializados passam a intervalos regulares, geralmente de hora em hora, nos principais pontos turísticos da cidade, num roteiro pré-estabelecido. Você vai confortavelmente sentado, escutando um audioguia com versão para sete idiomas - português incluído, numa pronúncia chiada e cheia de “erres” rascantes que faz você ter saudades do inglês e do espanhol -, e pode descer a qualquer momento nas várias paradas distribuídas estrategicamente pelos pontos da cidade. O passe vale para o dia inteiro, por isso é melhor comprá-lo no início da manhã para percorrer o máximo de lugares importantes. Fomos os primeiros a subir no segundo andar do ônibus na Plaza Catalunya, no centro do centro de Barcelona, para onde convergem todas as linhas de metrô, linhas de ônibus e rotas turísticas da cidade. A empresa que comercializa o Barcelona Bus Turistic opera com três roteiros, a Rota Vermelha, a Rota Azul e a Rota Verde, cada uma cobrindo uma região da cidade. No site da empresa dá para ver exatamente quais são os roteiros e até fazer reservas para os passeios. Para a alta temporada, julho, agosto e setembro, pode ser legal ir já garantido. Há alguns pontos onde as linhas se cruzam, sendo possível nestes pontos descer do ônibus, por exemplo, da linha vermelha e subir no ônibus da linha azul, como fizemos. Mas não previmos que era impossível percorrer detalhadamente cada atração de Barcelona, tantas são.

Pois Barcelona, na costa marítima oeste da Espanha, tem sido ocupada, colonizada e influenciada por vários povos mediterrâneos ao longo de milhares de anos. Vestígios de povoamento naquele lugar vêm desde o final do Neolítico (2000 a 1500 a.C). A lenda diz que a cidade fora fundada por Hércules, 400 anos antes da fundação de Roma. Ocupada pelos cartagineses, depois pelos romanos, considera-se como data oficial de sua fundação o ano I de nossa era. No século seguinte, o imperador Cláudio ordena a construção de muralhas na cidade e cem anos depois a população de Barcino (nome dado pelos romanos) já era estimada entre 4.000 e 8.0000 pessoas. No século V é conquistada pelos visigodos e em VIII pelos árabes e libertada no século seguinte pelos carolíngios. E cem anos depois .. pumba! Lá vêm os muçulmanos e a dominam novamente.

No século XIV, iniciou-se uma rivalidade entre Castela e Aragão (Fernando e Isabel) que jogaria Barcelona numa decadência até lá pelos anos de 1800, quando começa a industrializar-se e retoma sua pujança. Com os jogos olímpicos de 1992, quando replaneja seu traçado urbano e moderniza-se em todos os sentidos. Essa confusão étnica e cultural de predomínios sobre a cidade se mistura e se funde numa arte extremamente marcante, um barroco mal-comportado, um mourisco irreverente, irredutível às escolas clássicas. Até a língua, o catalão - às vezes parecendo um árabe tosco; às vezes parecendo um espanhol misturado com português, francês -, é uma salada de vários línguas, uma bagunça total. Você entra nos bares e ouve todo mundo falando num quase sussurro, tenta prestar atenção no que estão falando e não consegue “resolver” uma frase com três ou quatro palavras, embora elas lhe pareçam extremamente familiares. É o catalão. Talvez por isso o Modernismo tenha se sentido à vontade nesta cidade cosmopolita, onde se fala “por baixo do tapete” e não fica parecendo ofensivo. A gente vê também que pessoas que vêm do mundo todo se sentem à vontade ali, caminhando pelas ramblas ou simplesmente vagando nos parques. Mas não se iluda. Não há mendicantes ou vagabundos perambulando pelas ruas; não há chatos perturbando o trânsito; nem grosseirões falando aos berros com seus celulares nas calçadas ou no metrô. Não é qualquer pessoa que se sente à vontade em Barcelona. Mas como eu e a Maria adoramos ordem, respeito, boa convivência e educação, adoramos Barcelona e nos sentimos muito à vontade lá.

Nós e os modernistas. Viram como somos moderninhos ? Pois é. E no passeio que o ônibus ia seguindo por avenidas e ruelas uma mais linda que a outra, coisa pra turista se encantar mesmo, a curtição era apreciar cada prédio mais estranho, cada portão de ferro mais estrambólico, cada estátua e monumento mais impressionantemente bolados, rebuscados, com cara de novo e antigo ao mesmo tempo.



Eu ia no ônibus fotografando tudo e lembrando daquelas ilustrações que eu via nos livros da coleção Tesouro da Juventude, “séculos” atrás, de casinhas em forma de sapato, edifícios construídos em árvores, aquelas imagens doidas dos contos de fadas. Mas com uma estética do detalhe bastante parecida, tematicamente voltada e focada para os preciosismos da natureza, que são por natureza, irrepetíveis, únicos, ricos de citações e que só usa as linhas retas quando extremamente necessário. E, claro, adorando o traçado urbano da cidade, com avenidas largas, um trânsito forte mas não caótico, muros romanos convivendo com prédios de vidro e aço, mais os sobradões malucos dos modernistas catalães. Não à toa, Dali montou sua base e viveu décadas pertinho de Barcelona.

Até que o ônibus chega na sua primeira parada e você leva um susto. Uma montanha de pedra esculpida, rodeada por monumentais guindastes com seus imensos braços, perfilados como se pertencessem ao cenário religioso: El Temple Expiatore de La Sagrada Família, a magnífica igreja Sagrada Família, que está há mais de cem anos sendo construída - desde 1882 -, e parece que vão levar mais cem anos para terminá-la. Não tem como não descer do ônibus. É uma obrigação. Uma convocação. E claro, chegamos cedo demais. Ainda nem estava aberto, mas faltavam apenas alguns minutos. Naquela espera tivemos a primeira experiência com grupos de turistas orientais. Onde quer que houvesse alguma coisa interessante para se ver ou visitar, lá eles estavam. Muito educados, muito compenetrados em registrar tudo em suas máquinas fotográficas, tal como descrições caricaturadas nos são dadas deles. Mas é verdade que são bem chatinhos com aquela mania de todos tirarem a mesma foto de alguma coisa do mesmo jeito. Às vezes são trinta japinhas se revezando na frente de uma estátua ou de uma igreja. E não saem da frente até que TODOS tenham tirada a mesma foto ... hehe ... mas fora isso, não incomodam ninguém, pelo contrário, são extremamente solícitos e alto-astrais, parecem até crianças. Na Sagrada Família tem muita coisa para se ficar abobalhado. A começar pelas suas dimensões, que são absurdas. Depois tem todo aquele encanto com as suas fachadas (a única terminada até agora é a da Anunciação. Mas ninguém reclama ou até se dá conta disso) que parecem ter sido feitas derramando água do mar num castelinho de areia. Mas olhando de perto, a boca fica mais aberta ainda. Nenhuma fachada é igual ou parecida com a outra. Parece que o mestre Gaudi, que é o nome mais conhecido e famoso na cidade, tentou não repetir nenhuma linha em lugar nenhuma da igreja. Só estando lá pra sentir que o velhinho conseguiu mesmo. Antoni Gaudi nasceu em Reus em 25 de junho de 1852. Favorecido pelo grande desenvolvimento industrial da Cataluña no início do século XX, teve muitos empreendedores que lhe patrocinaram fortemente os arroubos criativos. O maior deles viria a ser o empresário Eusebe Güell (já morto, mas não atingido pelo falecimento do trema), que viria a ser homenageado em várias das “maluquices” de Gaudi, sendo a maior delas o Parc Güell. As linhas curvas, assimétricas, tortuosas e revolucionárias da arquitetura, melhor dizendo: da arte, de Gaudi, inspirada persistentemente, obsessivamente, nas formas, forças, seres e objetos do universo, foram determinantes para uma renovação que se configura em todo o final do século XIX e início do século XX em toda a Europa. E são inúmeras as marcas de Gaudi encontradas em Barcelona, demonstrando uma produção gigantesca, só interrompida por um bonde que o atropelou fatalmente em 1926, quando o velhinho curvado admirava a sua Sagrada Família do meio da rua. Na Sagrada, depois de você percorrer seus corredores monumentais, com aquelas colunas malucas, escadas fantasmagóricas, paredes absurdas, etc etc etc, você pode visitar um pequeno museu da construção, repleto de maquetes, estudos, móveis, plantas, fotografias dos vários estágios de construção da igreja. E depois, claro, não esqueça de visitar a lojinha que fica dentro dos muros da “paróquia”, ao lado da igreja e do museu. Tem recordação de tudo que é tipo. Desde o chaveirinho de 2 euros até maquetes perfeitas, das quais eu nem tive coragem de perguntar preço. A primeira frustração é tentar enquadrar a Sagrada Família numa Sony Cyber Shot 5.1. Não cabe de jeito nenhum. Fomos até a Plaza Gaudi, atravessando a rua, mas novo insucesso. Olhei pra trás e não tinha jeito, só indo pra muito longe. Deixei pra lá. Ficamos umas boas duas horas na Sagrada, muito mais do que o nosso programa, que, apertadinho, esmagava essa visita numa esquálida horinha. Nem brincando. Também não iríamos viajar conhecendo tudo “nas coxas”, não é mesmo? Degustada La Sagrada, fomos em frente. Pois nem esperamos o próximo ônibus. Pegamos o metrô. Estávamos adorando andar de metrô ... pela facilidade de uso, pelas estações limpas e organizadas, sem traços de vandalismo, pelo preço acessível, pela clareza nas instruções, pela tranquilidade na hora de pagar e usufruir, enfim, pela qualidade do transporte público - o que nos dava uma inveja tremenda daquele traço de civilidade ... isso sim é uma administração pública tratar com respeito seus cidadãos, isso sim é usar com eficiência e dignidade recursos públicos, dando qualidade de vida para quem paga impostos ..., putz! Virei chato! - Bom, voltando ao assunto: nos tocamos pro centro histórico, que fica .. no centro de Barcelona .. kkk. Depois de curtir bastante caminhar por vielas medievais, com aquele climão de Idade Média, cheias de turistas caminhando num fluxo infindável, cheias de igrejas, capelas, obras de arte arquitetônicas, com 500, 600, 700, mil anos de história e sobrevivência, cheias de músicos interessantes ... como um tocador de harpa que tirava sons bárbaros.
Lembro de ir seguindo uma voz maravilhosa pelas ruelinhas, verdadeiros labirintos de pedra, até dar com uma contralto cantando nas escadarias de uma igrejinha escondida entre becos e mais becos, ecoando nas paredes centenárias, além de pintores, escultores, estátuas humanas, ... inúmeros artistas.


E tudo isso tendo o cuidado de não ingressarmos nas ramblas, que seriam o passeio do feriado, dois dias mais tarde. Pois acabamos chegando ao Museu D’Història de La Ciutat, que estava apresentando uma exposição sobre “La Arqueología en Barcelona”. À mostra, o solo do museu, escavado, com as colunas de pedra romanas iluminadas e admiradas através de passarelas erguidas sobre as próprias escavações, expondo paredes, salas, ruas, calçadas, adegas ... a vida como ela era nos séculos romanos da cidade, expondo o esqueleto histórico de Barcelona. Dali saímos para a luz do sol, mas um sol que parecia pertencer a um tempo situado entre os séculos XV e XVII. Caminhamos bastante entre as ruelinhas e bequinhos do centro histórico curtindo a atmosfera medieval, até que fomos parar num grande calçadão aberto, comprido e largo. Numa belíssima fachada, arte no inconfundível estilo de Miró: o Instituto dos Arquitetos. Mais um pouquinho e vimos a fachada imensa da catedral de Barcelona, ainda escondida atrás de tapumes e guindastes. Então, numa avenida mais larga, que desconfio ser a Diagonal, entramos numa lancheria fashion. Olhamos em volta e vimos que o público era uma coisa sui generis, gente de todas as tribos. Cada partição reunida num “nicho” do superbar. E cada estilo de viajante comendo de acordo com a sua “bíblia”. Os que comiam sanduíches naturebas, os que comiam só vegetais, os que estavam só pelo café, os que traziam pão de outro lugar e só pediam refri .. e nós com os nossos bolinhos roubados do bulldog. Pedimos um complemento e mandamos brasa. Em segundos a Maria já tinha usado o banheiro e estávamos prontos para a segunda parte do dia. Pegamos la Ruta Roja novamente e descemos em frente à Casa Milà, mais conhecida no mundo todo como La Pedrera. De novo, Gaudi. E de novo o industrialismo emergente lhe dá as condições, tanto financeiras como de livre expressão de ideias, para “pirar na batatinha”. Por encomenda do industrial Pere MIlà e sua mulher, Roser Segimon, Gaudi projeta e constrói um edifício para residência do casal e para aluguel dos restantes pisos. O bairro Example está predominando como preferido da burguesia barcelonesa, desbancando o antigo Ciutá Vella e trazendo essa turma nova-rica para os arredores do Paseig de Gracia, bairro mais afastado da cidade na época. Gaudi construiu dois bloco independentes, organizados em volta de dois grandes pátios interiores intercomunicados, para poder iluminar todos os apartamentos. A isso acrescentou uma fachada revolucionária (de novo, de novo ... !!!) e um terraço apinhado por chaminés malucas, que parecem capacetes de soldados, cogumelos, figuras fantásticas ou seja lá o que for, dependendo do ângulo do qual se as observa ou do estado mental do observador. No térreo do edifício estava rolando uma exposição de obras de pintores venezianos. L’Art a la Venècia dels Segles XVII i XVIII. Maravilhosa. A primeira que vimos sobre arte italiana, clássica até os bigodes. Mas o barato mesmo é visitar a exposição permanente, que ocupa os três últimos andares do prédio. Melhor dizendo: o quarto andar, onde funciona uma exposição permanente de um apartamento decorado tal como nas primeiras décadas do século XX. Com direito a parquê bem lustradinho até móveis com design modernista e coisa e tal; o “sótão” do edifício, onde funciona o Espai Gaudí, contando a vida do artista, o contexto histórico e social, os valores artísticos e culturais que influenciaram e sofreram a sua influência. E dê-lhe desenhos, maquetes fotografias, móveis, brinquedos, invenções, rascunhos, estudos de perspectiva, dinâmica e de correlação de forças arquitetônicas e estruturais. Tudo superbem-apresentado, uma exposição de extremo bom gosto. E então finalmente vem o terraço, uma obra de algum chapeleiro maluco, cheia de degraus, túneis, chaminés, ladrilhos, ângulos inesperados, curvas dominantes, direita-esquerda-sobe-desce-vai-vem ... tudo-junto-num-lugar-só. Só na foto pra ter uma ideia. E ali se foi praticamente a tarde toda.



Ainda faltavam Montjuic e o Museu Marítimo. Credo de novo. Chegamos na parada do Bus Touristic já anoitecendo. O céu escuro, as sombras baixinhas. Na parada, uma multidão pra entrar no ônibus, mas, como sempre, eu e a Maria éramos os primeiros da fila. No segundo andar do ônibus a vista estava bem bacana, dando a tudo o tom avermelhado daquele lusco-fusco da tardinha. Mas para a máquina, já estava escuro demais, não tinha mais foco possível. Subimos o Montjuic já enxergando somente coisas que tinham uma forte iluminação. Mas era pouco, o legal mesmo é subir pelo teleférico vindo lá do porto, passando por cima de praticamente toda a cidade. Não deu. Mas terminamos o passeio descendo até o porto, passando pelo Monument a Colón e entrando no museu marítimo. Bom, que Barcelona vive na costa mediterrânea e que há séculos tem intimidade com as lidas marítimas, isso pode não ser óbvio para todo mundo.



Ocupando um antigo edifício militar desde 1929, foi ampliado de 4000 m² para 10000 m² em 1941 e, entre as peças, exibe desde submarinos, navios, instrumentos náuticos, obras de arte, cartografia, bibliotecas até um modelo em escala natural de uma galera real do Don Juan da Áustria - com 60 metros de comprimento, 59 remos, ricamente decorada - um verdadeiro desbunde. Vale uma visita virtual: www.mmb.cat. Saímos dali noite escura já, e loucos de fome. Achamos um restaurantezinho na avenida e fomos pro hotel, tomar um vinho e curtir uma telinha. Deu pra cansar. Nos primeiros acordes do programinha brega de entrevistas da TV catalã (que nós não entendíamos patavinas) adormecemos com as taças cheias até a metade.

domingo, 5 de abril de 2009

Crônicas européias – 2 – BARCELONA_01

Barcelona - 2007, 29 de dezembro

Europa. Voando de Madri para Barcelona. Quase cinco horas da tarde. Nesta época do ano, na Espanha, o céu já começa a dar mostras de que a noite vem vindo. A luz do sol atravessa o chão quase deitada. As sombras ficam compridas, meio fantasmagóricas até. Pouco antes da aterrissagem, ainda grudados nas janelas do avião, passáramos perto e ficáramos maravilhados por uma pequena cadeia de montanhas rochosas com um aspecto bastante esbranquiçado, que produzia um efeito visual bem interessante e bonito com aquelas sombras espichadas de fim de tarde. Depois soubemos que aquela cadeia de montanhas se chama Montserrat, uma formação espetacular que serve de cenário natural para um monastério, descrito pelo folhetinho distribuído no escritório de turismo de Barcelona como um verdadeiro complexo turístico. A logística do lugar compreende desde o acesso ao parque turístico pelas rotas de metrô e trem até a exploração inteligente dos pontos de adoração religiosa, como do Santuário de la Virgem e do milenar monastério beneditino. Vi no papelzinho ainda que lá tem uma pinacoteca sensacional e que dá pra apreciar um coral de pequenos cantores em uma Basílica encrustrada entre panorâmicas e belíssimas montanhas rochosas. Ficamos loucos para ir visitá-la, mas com o feriado de Ano Novo, um monte de programas, passeios e pontos turísticos estaria fechado ou inacessível. E havia Dali, nos esperando em Figueres.




Se você quiser saber mais sobre Montserrat, neste site encontram-se todas as informações sobre o lugar ... dá até pra ouvir os sinos tocando e as crianças do coral cantando ... (SÉRIO!):
http://www.barcelona-tourist-guide.com/en/tour/montserrat-spain.html




Descendo do Boeing 737 da Air Europa, no aeroporto Barcelona (BCN), nem dá ainda pra sentir o impacto do peso dos mais de mil anos de civilização continentale, moldada desde muito antes do romanismo. Embora o porto de pouso de mais de trinta rotas internacionais seja um bastante discreto show do desenvolvimento tecnológico dos gringos, agora penso que, se fôssemos um pouco mais espertos como viajantes – no que ainda demandaria um bom tempinho até nos aperfeiçoarmos -, isso já deveria ser motivo suficiente para nos fazer abrir o olho. Digo “abrir o olho” para o que, às vezes, nos escapa da atenção e é o que realmente importa. Eficiência. Competência. Civilidade e consideração pelo viajante. Muito facilmente encontramos a saída e dali pertinho pegamos um táxi que nos impressionou pela limpeza e qualidade do carro, um mercedinho que não devia ter mais do que uns dois anos de praça. O motorista, muito bem educado e empenhado em nos parecer agradável, responderia solicitamente qualquer pergunta nossa ... desde que conseguisse entender um pouco mais do que a metade das palavras que nós tentávamos estruturar numa frase inteligível para o pobre espanhol. Então, claro, apelamos para a linguagem universal dos monossílabos, onomatopéias e recursos linguísticos não verbais, como a mímica italiana de braços e mãos. Conseguimos comunicar o endereço do hotel, sucesso absoluto.

E rumamos os doze quilômetros até o hotel curtindo a rodovia e a paisagem que ia passando pelas janelas do carro, em velocidade de cruzeiro flanando num tapetão de asfalto, escorrendo junto a tantos outros carros fluindo como células do sangue deslizando em artérias urbanas, um grosso caldo de veículos voando em silêncio. Uma ordem absurda. Dentro do táxi eu pensava se minha reserva feita por um site na internet, apesar das inúmeras confirmações via e-mail, pela nossa agente de viagens, que disse ser a E-Dreams uma empresa fidedigna. Nada disso chegava pra me convencer de que aquela reserva podia ser um golpe ... “Claro ... Ninguém poderia saber porque nós seríamos as primeiras vítimas ... E o que iria adiantar reclamar para sei lá quais autoridades de turismo ... Iríamos perder nosso dinheiro já pago mesmo ... uns trezentos euros por quatro noites ... e onde iríamos procurar outro hotel na última hora ? ... sacanagem ... e logo o único hotel que eu reservei pessoalmente ... por causa do feriado do Ano Novo ... logo esse !!! ... eu devia ter deixado a Fabiana ter comprado hotelaria em Barcelona ... putz ! .. logo o primeiro hotel da viagem ...“ e assim iam enveredando meus sombrios pensamentos, dentro de um túnel escuro de incertezas, dentro daquele táxi moderno dentro daquele movimento deslizante entre as outras hemácias daquela moderna rodovia. Enquanto isso, a Maria não tirava os olhos do novovelho mundo da janela.

Quando o carro encostou na frente do Hotel Auto Hogar, na Av. Paral.lel, ficamos bem satisfeitos em ver que era tudo verdade. Que o hotel existia. Era só entrar. Tá ... mas vamos dizer O QUÊ pro cara da recepção ? ? ... Demos uma treinadinha no espanhol que tinha nos guias. Cadê a frase aquela ? Cumé mesmo que se pronuncia ? Tá bom ... entramos.

Com aquela cara-de-cachorro-com-fome, arrisquei um espanhol quase sumido num misto de timidez e insegurança, mas saiu direitinho e o cara da recepção entendeu. “Pegorini, Ricardo ?” ... “Si, hai una reserva” ... Soltei a respiração. Pegamos as malas e seguimos o funcionário até o quarto. “Pegaram as malas ?” ... Sim, estávamos tão contentes que nem pensamos em pedir pro cara levar. E ele também nem fez questão de nos lembrar disso ... rsrsr. Mas chegando ao quarto, a impressão foi positiva.



Com uma belíssima vista para os varais e paredões dos outros edifícios, nós não estávamos (ainda) ansiosos para ficar longos períodos dentro de um quarto de hotel. O quarto era bem legal, afinal de contas. Com um banheiro imenso, um quarto com duas camas, bastante espaço, móveis de boa qualidade, uma infra da qual ainda sentiríamos saudades em alguns outros lugares da Europa. Nos instalamos, desemalamos as coisas, banho, roupa limpa, separamos os documentos, dinheiro e saímos para o nosso primeiro passeio de verdade pelas ruas de uma cidade européia.




A Avenida Paral.el é uma rua grande, mas não é uma avenida. Não tem canteirinho no meio. Parece mais uma Sete de Setembro do que uma João Pessoa. Caminhamos até a estação Drassanes , na esquina, e entramos a esmo na Carrer Nou de la Rambla, uma ruazinha estreita, mas com muita personalidade.



Aliás, logo de cara a Maria simpatizou com aquelas ruazinhas estreitinhas, vindas de um tempo que não parecia não se importar muito com o trânsito de carroças, muito menos de automóveis. Logo em seguida, vimos um mercadinho. Ali compramos um abridor de garrafas (pro vinho), um adaptador para as tomadas espanholas, diferente do meu adaptador argentino, comprado quando fui para a Patagônia com meu sogro (é, mas isso é OUTRA HISTÓRIA), e, claro, o vinho para antes do soninho. Caminhamos mais um pouco e achamos um belo restaurantezinho. Inho, inho, inho, mas com uma bisteca do tamanho de um urso. Jantamos maravilhosamente e voltamos para o hotel. Televisão espanhola é brabo. Um pouco menos brega que a italiana ... o que já é suficientemente breguíssimo ... rsrsrs ... mas conseguimos achar um filme antigo pra degustar o vinhozinho espanhol. E adormecemos vendo Dr. Jivago castelhando para uma Lara meio esganiçada, com aquele passo duro das palavras espanholas. Muy ajeno.