quinta-feira, 10 de março de 2011

A Cor que faltava




Egípcios, cretenses, sassânidas, bizantinos, otomanos, góticos. Entre os mosaicos da mente humana, através dos tempos, o espírito de Maurice preside a sua busca com autoridade própria dos imortais. Seus olhos esquadrinham os universos possíveis contidos nos excertos dos medievalistas. Bombaim, Ankara, Marselha, Recife e, agora, Porto Alegre presenciaram secretamente a sua imensa capacidade de perseguição. Maurice teve que envelhecer sessenta e oito anos para vencer o duelo contra os códigos entrincheirados na escuridão da ignorância. A deformação exagerada dos traços de sua personalidade empurrou-o ao encontro dos apelos dionisíacos dos magos do velho mundo. Saqueou os mistérios hibernantes dos mosteiros, penetrou a estrutura dos contornos dos pilares babilônicos, instruiu-se com os fantasmas guardiões das bibliotecas alexandrinas, bateu-se em combate verbal contra os quarenta e sete capitães de um ermo jardim nas proximidades do Labirinto.

A história desconhece os diversos momentos desse pesadelo tão lúcido compartilhado por tão poucos. Existem os templos arrancados da pedra, bordados pelo inconsciente coletivo e contemplados pela parte da humanidade que não está no seu ciclo individual de guerra; mas sabemos, também, dos monumentos não físicos, erigidos pelos pensamentos decentes e só acessíveis à arqueologia alquímica. Maurice desenterrou habilmente os genes lingüísticos dessa ciência. Em Marselha, onde instalou o escritório central de sua empresa cabalística, estudou a sintaxe contida na engenharia das catedrais. Aprendeu a reconstruir gramaticalmente as definições e os pentagramas vandalizados pela noite dos séculos. Seu plano sofreu um desvio fundamental quando Maurice sonhou com o Enigma óbvio.

No enredo onírico, um cidadão da Saxônia, pálido e roído pelos germes da lepra, segurava com mão plúmbea sua garganta. Maurice pensou, enquanto sonhava, que a culpa o enforcava lentamente. Mas, do ar que se extinguia dos seus pulmões, foi brotando uma gigantesca bolha de vidro, portando todas as cores do mundo. A bolha explodiu e seus pedaços ficaram grudados na parede, formando um imenso vitral. Vitrais ! Maurice acordou tão espantado e tão afoito em dominar tal linguagem que nem viu as marcas de dedos impressas no pescoço e refletidas pelo espelho. Foi numa madrugada de sexta para sábado que os fornos adquiriram sentido na existência do francês. Mais vinte anos escorreram pelas artérias desse homem, decifrando a metáfora das cores, a lógica estrutural desse peculiar tipo de composição e o significado de uma arte que descrevia, entre outras coisas, os princípios éticos das relações cósmicas. Apropriou-se dessa semântica. Leu todas as esperanças de uma sabedoria pré-histórica, expressas na freqüência da luz modificada pelo vidro. Percebeu o jogo das elipses envolvido no mundo emaranhado das cores. Decodificou cada uma dessas elipses. Todas elas ? Não. Faltou uma. Agora, ele levanta os olhos de um livro amarelado e comido pelas traças, deserdado numa banca de saldos da Feira do Livro de Porto Alegre. Subitamente, sente o ar evadir-se dos pulmões e um nó górdio formar-se na garganta. Dez anos adormecidos em seu coração despertam bruscamente com uma visão. Natalie. Na sua frente, olhando para ele. Os dois unidos por uma saudade recíproca. Maurice percebe, num violento "insigth", que acumulou todos os tesouros dos antigos, todos os movimentos de sua vida, para compreendê-los instantaneamente numa praça de uma cidadezinha brasileira. Para trocá-los pela cor dos olhos de Natalie. O chumbo finalmente transmuta-se em ouro.